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Uma máquina para tratar a depressão

A partir de agora, o Centro Champalimaud tem um equipamento de “estimulação magnética transcraniana” para tratar doentes com depressão resistente aos fármacos. As consultas poderão abrir já no Outono.

  1. 28.7.2017

    Estima-se que 20 a 30% dos doentes com depressão não responde – ou não suporta – os tratamentos com medicamentos antidepressivos. Mas quando estes doentes, de tão difícil tratamento, são submetidos a várias semanas de sessões de uma técnica chamada “estimulação magnética transcraniana repetitiva” (rTMS na sigla em inglês), o estado clínico de 41,5 a 56,4% deles melhora substancialmente e entre 26,5 e 28,7% deixam de estar deprimidos (dependendo da escala de avaliação utilizada). Fonte destes dados: http://www.neurocaregroup.com

    A utilização da rTMS no tratamento da depressão resistente aos medicamentos foi aprovada pelas autoridades de saúde dos EUA em 2008, e o seu uso contra a depressão tem vindo a aumentar e a espalhar-se pelo resto do mundo. A tecnologia foi desenvolvida há já mais de 30 anos pelo engenheiro britânico Anthony Barker. No entanto, foi só na década de 1990 que, pela mão de médicos pioneiros nesta área, tal como o neurologista espanhol Álvaro Pascual-Leone, da Escola de Medicina de Harvard, que esta abordagem começou a ter utilização clínica.

    Já existem várias máquinas de rTMS em Portugal, segundo Albino Oliveira-Maia, psiquiatra do Centro Champalimaud, em Lisboa, que trabalhou – e ainda mantém uma forte colaboração – com Pascual-Leone. Mas, acrescenta Oliveira-Maia, “não há em Portugal programas terapêuticos de rTMS estruturados, aos quais as pessoas tenham acesso para tratamento de doenças psiquiátricas”. É esta lacuna que, com a sua equipa e a nova máquina de rTMS, Oliveira-Maia tenciona começar a colmatar.

    O que faz exatamente uma máquina de rTMS? Induz um campo magnético à sua volta, devido à passagem de corrente elétrica por uma bobina, tipicamente metálica. Pela sua vez, quando a bobina está próxima do cérebro, esse campo magnético vai gerar correntes elétricas no tecido nervoso, suscetíveis de produzir alterações funcionais nesse tecido e, desse modo, ter um impacto terapêutico.

    “É assim possível estimular repetidamente o tecido nervoso focalmente, sem aplicar eletricidade diretamente”, explica Oliveira-Maia, ao contrário do que acontece na terapia electroconvulsiva, vulgarmente conhecida por eletrochoque. Ou seja, “a estimulação magnética transcraniana é uma técnica não invasiva e indolor, que não exige anestesiar os doentes e apresenta riscos mínimos de efeitos adversos”, salienta Oliveira-Maia.

    A mais importante complicação potencial é a ocorrência de uma convulsão. “Mas importa salientar que, com anos de utilização da TMS, essa ocorrência é raríssima e a grande maioria dos centros de tratamento por rTMS nunca teve um único caso”, salienta Oliveira-Maia. “Por outro lado, quando ocorre uma convulsão, é um evento tratável e que não deixa sequelas.”

    Na década de 2000 foram realizados ensaios clínicos controlados e a FDA (a agência federal norte-americana que regula os medicamentos e equipamentos médicos) autorizou uma primeira marca de equipamento de rTMS. Desde então, mais três marcas obtiveram o “sinal verde” da FDA. Entre elas a MagVita – um exemplar da qual vai agora ficar instalada na Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Clínico Champalimaud.

    Tratamento descontraído

    O tratamento consiste em sessões de estimulação repetitiva “de 30 a 40 minutos, cinco dias por semana, durante quatro a seis semanas”, diz ainda Oliveira-Maia. Durante cada sessão, o dispositivo de rTMS, semelhante a uma grande colher com a concha em forma de “oito” é encostado pelo técnico ao crânio da pessoa. “Os doentes podem entretanto ler, ver televisão ou dormir”, diz Oliveira-Maia, salientando assim o lado descontraído do procedimento.

    A parte do cérebro estimulada é o “córtex pré-frontal dorsolateral” (CPFDL) esquerdo, especifica o médico, uma área que fica na parte da frente da cabeça. Com base nos resultados de diversos estudos, as máquinas foram, por enquanto, apenas aprovadas para a estimulação desta zona.

    Mas como é que os especialistas sabem onde, à superfície do crânio, aplicar o estimulador? “Nós não vemos exatamente a zona do cérebro que estimulamos, mas sabemos qual é o ponto específico do crânio onde o devemos fazer”, responde Oliveira-Maia. “Começamos por testar uma área do córtex motor no lado esquerdo da cabeça, que nos permite determinar, por tentativa e erro, o ponto de maior estimulação do movimento da mão” direita.

    “Marcamos então esse ponto na touca que cobre a cabeça do doente”, prossegue Oliveira-Maia, “e a seguir desenhamos uma linha curva, com um comprimento pré-determinado, dirigida para a frente. É debaixo desse ponto do crânio que se pensa estar o ponto do CPFDL onde a rTMS deverá produzir o maior efeito antidepressivo.”

    Porquê? Porque “conforme outros estudos – de ressonância magnética, de conectividade –, este parece ser o ponto do CPFDL que comunica preferencialmente com uma outra área, mais profunda, do cérebro, chamada ‘córtex cingulado subgenual’”, diz Oliveira-Maia. E essa sim, ao que tudo indica, tem uma relação importante com a ocorrência de sintomas depressivos. Mais precisamente sabe-se, por exemplo, que a tristeza, um dos sintomas fundamentais da depressão, está associada à hiperatividade neuronal do córtex cingulado subgenual.

    “Nós estimulamos o CPFDL e não sabemos exatamente o que acontece na área mais profunda”, acrescenta Oliveira-Maia. “Mas pensamos que a estimulação poderá diminuir a atividade do córtex cingulado subgenual, e assim melhorar os sintomas da depressão.”

    A utilização deste tratamento no Centro Clínico Champalimaud poderá também incluir doentes oncológicos, que sofrem frequentemente de depressão. E de facto, para estes doentes, a rTMS tem, segundo Oliveira-Maia, a vantagem acrescida de evitar interações indesejáveis entre os medicamentos que fazem para tratamento de cancro e os antidepressivos.

    No entanto, a máquina não deverá ser utilizada apenas para tratamentos, mas também para investigação pré-clínica –, por exemplo “para explorar como a rTMS modifica alguns marcadores comportamentais da síndrome obsessiva-compulsiva”. A ideia é que, no futuro, a rTMS possa vir a ser aplicada a outras afeções clínicas.

    Mas antes de inaugurar a nova consulta, diz Oliveira-Maia, “temos primeiro de treinar pessoas para operar a máquina e também pensar nas formas mais eficazes de facilitar o acesso ao tratamento”. Oliveira-Maia tem a esperança de que conseguirá começar a tratar doentes já em setembro.

    © Fotografia de Catarina Ferreira da Silva




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