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Quem espera sempre alcança?

Estudo de investigadores da Fundação Champalimaud mostra que quanto mais serotonina, mais paciência.

  1. 15.1.2015

    Num estudo publicado a 15 de janeiro na revista científica Current Biology, um grupo de investigadores, liderado por Zachary Mainen no Centro Champalimaud (CC), descobriu uma relação de causalidade entre a ativação dos neurónios que produzem serotonina e o tempo que os ratos estão dispostos a esperar por uma recompensa. Este mesmo estudo permitiu também rejeitar a ideia de que o aumento de serotonina produz um efeito gratificante.

    A serotonina é um neuromodulador químico, alvo de medicamentos antidepressivos, como o Prozac, que são utilizados frequentemente no tratamento da depressão e de outros distúrbios, como é o caso da dor crónica. A serotonina é produzida por um pequeno conjunto de neurónios localizados numa área do cérebro chamada núcleo da rafe. No entanto, sabe-se ainda muito pouco sobre o que provoca a ativação destes neurónios e consequente libertação da serotonina, e como é que a serotonina afecta a atividade cerebral.

    Com o objectivo de investigar a relação entre a serotonina e a paciência, os investigadores desenvolveram uma tarefa na qual os ratos têm que esperar pacientemente por uma recompensa que chega em momentos aleatórios. Em alguns dos ensaios, usou-se uma técnica chamada optogenética que permite ativar de forma específica os neurónios produtores de serotonina. Madalena Fonseca, membro do grupo do Centro Champalimaud, explica a técnica, "tirámos partido da optogenética, uma técnica que combina ferramentas genéticas e ópticas, de forma a tornar os neurónios produtores de serotonina sensíveis à luz. Assim, sempre que incidimos luz sobre estes neurónios, libertou-se serotonina por todo o cérebro."

    Os cientistas observaram que, quando os neurónios de serotonina eram ativados pela luz, os ratos tornavam-se mais pacientes. "Também testámos como diferentes graus de ativação influenciavam a espera e verificámos que a ativação mais forte resultava numa duração mais longa da espera, ou seja, quanto mais serotonina era produzida pelos neurónios, mais tempo os ratos esperavam", diz Masayoshi Murakami, também membro do grupo da Fundação Champalimaud.

    Para perceberem se a espera paciente era apenas um efeito colateral de uma outra função da serotonina, os cientistas realizaram experiências para testar se a estimulação dos neurónios de serotonina poderia estar a funcionar como uma recompensa. "Se a sensação desencadeada pela libertação de serotonina fosse suficientemente agradável ou gratificante para os ratos, isso poderia explicar porque é que estavam dispostos a esperar mais”, diz Madalena Fonseca. Neste conjunto de experiências, os investigadores testaram se os ratos tinham uma preferência por acções associadas com o aumento de serotonina. Os resultados destas experiências foram negativos, descartando assim a possibilidade de que o aumento da paciência era uma consequência da recompensa.

    Este estudo tem implicações para a compreensão do envolvimento de serotonina na depressão e outras doenças. "Como se pensa que os antidepressivos aumentam os níveis de serotonina, é comum as pessoas assumirem que quanto mais serotonina os neurónios produzirem, melhor se irão sentir. O que os nossos resultados vêm demonstrar é que a história não é assim tão simples. Demonstrámos que a serotonina afeta a paciência e isso dá-nos uma pista importante, que esperemos venha contribuir para desvendarmos o mistério da serotonina ", conclui Zachary Mainen.

    Com financiamento do European Research Council, este grupo do Centro Champalimaud vai continuar a investigar diferentes aspectos da função da serotonina.




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