21 março 2019

Como resolver o "dilema" do cancro retal?

Quando o cancro retal atinge os gânglios linfáticos adjacentes, os doentes podem ter um melhor resultado clínico se a quimioterapia ou radioterapia forem administradas antes da cirurgia para remover o tumor. No entanto, o estado desses gânglios só pode ser avaliado com precisão após a sua remoção, durante a cirurgia.

Como resolver o

De forma a ultrapassar este impasse, uma equipa multidisciplinar de cientistas e clínicos do Centro Champalimaud, em Lisboa, Portugal, desenvolveu uma nova metodologia de ressonância magnética não invasiva, chamada SPI (Susceptibility Perturbation MRI), que é capaz de determinar, com alta precisão, se os gânglios foram infiltrados por células malignas. Esta caracterização poderá ajudar a definir a estratégia de tratamento para os doentes com cancro retal e ter implicações futuras para outros tumores malignos.

Hoje em dia, o procedimento convencional para tratar o cancro retal inclui uma cirurgia radical para remover o tumor, o reto e o tecido envolvente (chamado mesorreto). Após a cirurgia, a amostra é analisada no laboratório de patologia para avaliar, entre outras coisas, se o tumor alastrou para os gânglios linfáticos do mesorreto. Por último, com base neste e noutros achados relevantes, os médicos optam pelo melhor tratamento possível.

Há muitos anos que este é o procedimento aceite para o tratamento do cancro retal. No entanto, existem indícios que sugerem que a radioterapia e/ou quimioterapia poderão ser mais eficazes, nos doentes de alto risco (nomeadamente com envolvimento dos gânglios linfáticos), se forem administradas antes da cirurgia. Mas isto coloca os médicos perante o seguinte dilema: para determinar a melhor estratégia de tratamento do doente são precisos os resultados da cirurgia.

Este dilema também pode levar ao excesso de tratamento, porque os radiologistas têm sido extremamente prudentes, considerando sempre, em caso de dúvida, que a infiltração dos gânglios linfáticos pelo tumor ocorreu de facto. Ora, esta abordagem muito conservadora é uma faca de dois gumes, uma vez que a radiação e a quimioterapia podem ter efeitos colaterais adversos e por vezes irreversíveis – algo que os médicos se esforçam para evitar na medida do possível.

Agora, num artigo publicado na revista Cancer Research, uma equipa do Centro Champalimaud, em Lisboa, Portugal, encontrou uma maneira de ajudar os médicos a sair deste impasse. A equipa desenvolveu uma tecnologia de ponta não invasiva de imagiologia por ressonância magnética (IRM) capaz de determinar com precisão, antes da cirurgia, se existem metástases nos gânglios linfáticos do mesorreto.

"O estado patológico dos gânglios linfáticos do mesorreto constitui um dos mais importantes indicadores de prognóstico em doentes com cancro retal", diz Inês Santiago, a primeira autora deste estudo.

"No entanto, com os protocolos de imagem actualmente implementados, o conhecimento do estado dos gânglios linfáticos antes da cirurgia é limitado. Portanto, a tomada de decisão baseia-se em grande parte noutras características do tumor." Para enfrentar este desafio, uma equipa multidisciplinar de cientistas e clínicos – incluindo Santiago, radiologista especializada no cancro do recto; Noam Shemesh, cientista especializado em ressonância magnética; e João Santinha, especialista em análise de imagem – decidiu desenvolver uma nova metodologia, capaz de diferenciar entre gânglios linfáticos benignos e malignos.

Uma assinatura magnética para o cancro

Para começar, a equipa testou a sua hipótese utilizando o scanner pré-clínico de IRM de campo magnético ultra-alto do Centro Champalimaud – um dos mais potentes do mundo. Quando as amostras de gânglios linfáticos extraídos de doentes com cancro rectal foram visualizadas com a nova metodologia SPI, a equipa observou logo diferenças substanciais entre os gânglios linfáticos benignos e os malignos. "A sua assinatura magnética era bem distinta. E também pudemos confirmar os nossos resultados de imagem comparando-os com as análises patológicas conservadoras utilizadas para avaliar a malignidade dos gânglios linfáticos", observa Shemesh.

Após o sucesso a nível pré-clínico, a equipa adaptou a SPI à clínica. "Os scanners de campo magnético ultra-alto ainda não estão disponíveis para uso em humanos. Portanto, para tornar a SPI efectiva no exame das neoplasias dos gânglios linfáticos de doentes, foi necessário adaptá-la aos scanners convencionais, que possuem um campo magnético muito mais fraco", explica Santinha.

Embora não se saiba ao certo se o SPI ainda funcionaria com os campos magnéticos mais baixos dos scanners clínicos, a adaptação foi bem-sucedida. "Para confirmar a eficácia da SPI, os doentes foram fotografados usando a SPI e o actual método de IRM. Após a cirurgia, a análise dos gânglios linfáticos confirmou que a SPI aumentava a precisão da caracterização dos gânglios linfáticos em comparação com as técnicas convencionais de ressonância magnética, com uma melhoria significativa da sensibilidade e sem perda de especificidade", afirma.

Agora, a equipa está a tentar optimizar a SPI clínica e a validar os resultados, alargando o estudo a outros centros."Acreditamos que a SPI pode representar uma mais-valia na selecção dos doentes que irão receber radioterapia e quimioterapia pré-operatória. Os nossos resultados são um bom sinal para estudos que no futuro se dediquem à generalização da SPI enquanto biomarcador específico dos gânglios linfáticos, que também poderá ser desenvolvida para determinar o estado dos gânglios linfáticos noutros tipos de cancro", conclui Santiago.

Por Liad Hollender, editora de ciência no Gabinete de Comunicação de Ciência da Champalimaud Research

Legenda da imagem: A nova metodologia de IRM (chamada SPI) permite distinguir entre gânglios benignos (em cima) e malignos (em baixo) com grande precisão. Ilustração: Noam Shemesh, Centro Champalimaud

Publicado na ar magazine.