07 Janeiro 2026

Como optimizar o percurso médico de doentes com cancro da mama na era digital

O que seria necessário para integrar o uso de ferramentas digitais de saúde, tais como aplicações e dispositivos colocados no corpo, e o da inteligência artificial no tratamento de doentes com cancro da mama em fase inicial? Foi desenvolvido um roteiro para preencher as lacunas que ainda impedem dar respostas baseadas em evidências sobre essa questão.

Como optimizar o percurso médico de doentes com cancro da mama na era digital

O Consórcio Lucerne, um grupo multidisciplinar de sociedades e investigadores europeus especializados em cancro que define orientações para o tratamento do cancro da mama em fase inicial, publicou, na edição de dezembro da revista The Lancet Oncology, as conclusões da sua iniciativa Lucerne Toolbox 3, que abre caminho para um melhor tratamento das doentes.
O consórcio Lucerne já apresentou recomendações consensuais relativas à terapia locorregional após uma terapia sistémica primária, bem como para o tratamento axilar no cancro da mama em fase inicial. Agora é a vez de definir metas científicas para as ferramentas digitais e da IA.
Os autores deste último relatório incluem Maria João Cardoso, cirurgiã da mama da Fundação Champalimaud (FC), em Lisboa, onde é também directora do Programa de Investigação do Cancro da Mama; Pedro Saint Maurice, investigador principal do laboratório de Actividade Física e Qualidade de Vida da FC e diretor associado do mesmo Programa; e colegas de vários outros países da Europa e do resto do mundo. De acordo com os autores, as ferramentas digitais e a IA podem tornar toda a jornada de uma mulher com cancro da mama em fase inicial mais segura, personalizada e eficiente.
A iniciativa Lucerne Toolbox 3 aborda a necessidade premente da integração, baseada em evidências, das tecnologias digitais de saúde e da IA nos cuidados do cancro da mama em fase inicial. Para isso, as ferramentas devem ser testadas em ensaios clínicos devidamente desenhados e controlados, e construídos em torno das necessidades das doentes.
Através de um processo de votação estruturado que envolveu 112 membros de 27 países e 16 sociedades médicas, grupos de ensaio e organizações de doentes, foram alcançados consensos sobre as questões mais urgentes a estudar. Esta estratégia de consenso permitiu ao consórcio identificar 15 “lacunas” fundamentais do conhecimento médico ao longo da jornada das doentes, que vão do diagnóstico ao tratamento e à sobrevivência, e que precisam de ser abordadas em primeiro lugar.
Os especialistas destacaram falta de evidências em relação às seguintes questões:
- Qual a melhor forma de utilizar a IA para ler mamografias;
- Como adaptar o rastreio ao risco individual de cada mulher;
- Como utilizar ferramentas digitais para escolher e ajustar tratamentos;
- Como monitorizar remotamente sintomas e efeitos secundários.
Para abordar as 15 “falhas” de conhecimento prioritárias de uma forma baseada em evidências, o consórcio propôs então 13 ensaios clínicos diferentes.
A realização destes ensaios poderia melhorar substancialmente os cuidados de saúde no cancro da mama, com testes mais precisos e menos invasivos; com tratamentos mais adequados a cada mulher (a IA poderia prever melhor quem realmente precisa de um tratamento agressivo); e com apoio mais fácil e acessível a partir de casa durante e após o tratamento, ajudando a gerir a fadiga, a dor ou os eventuais problemas psicológicos que requerem a atenção de um médico.
O consórcio traçou assim um plano prático sobre como as ferramentas digitais e a IA deverão ser testadas e utilizadas para melhorar os cuidados oferecidos às mulheres com cancro da mama em fase inicial, desde o primeiro rastreio até à vida após o tratamento.
Este roteiro fornece recomendações aos investigadores sobre as questões digitais e de IA que devem ser testadas e sobre a forma como devem ser testadas. Com base em provas científicas, os cuidados com o cancro da mama em fase inicial poderão tornar-se mais precisos, mais personalizados, mais confortáveis e mais equitativos. O roteiro representa uma base para o avanço dos cuidados médicos do cancro da mama na era digital.

Artigo original aqui

Texto por Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud.
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