06 Julho 2026

Melhorar a precisão da cirurgia mamária através de gémeos digitais específicos para cada doente

Um novo estudo do Digital Surgery Lab (Laboratório de Cirurgia Digital) da Fundação Champalimaud demonstra como gémeos digitais específicos para cada doente, combinados com realidade aumentada, podem ajudar a tornar a cirurgia ao cancro da mama mais precisa. Ao permitir que os cirurgiões visualizem o tumor do doente antes de efetuarem a primeira incisão, esta tecnologia tem o potencial de melhorar a localização do tumor durante a cirurgia de preservação da mama, reduzindo simultaneamente a invasividade e contribuindo para melhores resultados cirúrgicos.

Melhorar a precisão da cirurgia mamária através de gémeos digitais específicos para cada doente

Publicado na revista científica The Breast, o estudo técnico piloto descreve o desenvolvimento e a viabilidade de um sistema orientado por realidade aumentada para a localização não invasiva de tumores. Este trabalho é o resultado de vários anos de investigação liderada por Tiago Marques, Pedro Gouveia e João Santinha, investigadores principais do Laboratório de Cirurgia Digital (DSL), em colaboração com vários membros da equipa, nomeadamente a doutoranda Rafaela Timóteo, que colaborou no desenvolvimento do projeto, bem como na recolha e análise de dados.

Um dos principais desafios na cirurgia de conservação da mama é identificar com precisão a localização do tumor, preservando ao mesmo tempo o máximo possível de tecido saudável. Para dar resposta a este desafio, a equipa desenvolveu um sistema que combina modelos anatómicos 3D específicos para cada doente, conhecidos como “gémeos digitais”, com visualização em realidade aumentada. A tecnologia permite aos cirurgiões visualizar informações digitais alinhadas com a anatomia do doente em tempo real, sem necessidade de procedimentos invasivos de marcação do tumor.

O desenvolvimento do sistema exigiu uma estreita colaboração entre engenheiros, investigadores e médicos. Trabalhando em conjunto com cirurgiões do Centro Clínico Champalimaud, a equipa adotou uma abordagem de co-concepção para criar uma interface que melhora a compreensão espacial da localização do tumor, integrando-se naturalmente no fluxo de trabalho cirúrgico. A plataforma alinha automaticamente o gémeo digital de cada doente utilizando sensores externos, permitindo que o modelo virtual seja registado com precisão em relação ao corpo do doente.

“Durante o meu doutoramento, quis abordar três desafios atuais na cirurgia do cancro da mama orientada por realidade aumentada: a deteção precisa do doente, o alinhamento de gémeos digitais na sala de operações e o desenvolvimento de uma interface de utilizador intuitiva e centrada no cirurgião, que permitisse uma perceção precisa do conteúdo digital. O objetivo final era conseguir uma localização precisa e não invasiva do tumor,” explicou Rafaela Timóteo, doutoranda no DSL.

A tecnologia foi avaliada em quatro cirurgias de conservação da mama, nas quais demonstrou uma precisão promissora na localização do tumor, elevada facilidade de utilização e uma integração perfeita nos fluxos de trabalho clínicos já existentes.

Para Tiago Marques, co-líder do grupo DSL e um dos orientadores do estudo, este trabalho representa um passo importante rumo ao futuro da cirurgia guiada por imagem. “Ao levar tecnologias digitais avançadas diretamente para a sala de cirurgia, podemos apoiar a tomada de decisões clínicas, reduzir a probabilidade de reexcisões e, mais importante ainda, melhorar a qualidade de vida das doentes com cancro da mama”, afirmou.

“Chegar a esta fase exigiu um esforço verdadeiramente interdisciplinar”, afirmou Pedro Gouveia, Diretor Médico, co-líder do grupo DSL e também supervisor deste projeto. “Este trabalho combina imagiologia médica, inteligência artificial, visão computacional, realidade alargada e interação homem-computador, reunindo estas áreas para apoiar diretamente os cuidados cirúrgicos.”

O projeto foi desenvolvido no âmbito de um forte ecossistema colaborativo que envolve o Programa de Investigação do Cancro da Mama, cujo compromisso com a excelência clínica e a inovação médica cria um ambiente ideal para a investigação translacional. Beneficiou também da experiência da equipa IT People Innovation, cujos programadores de software trabalharam em conjunto com os investigadores do DSL para transformar algoritmos complexos em ferramentas robustas e clinicamente relevantes.

Este trabalho contou com o apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português e do consórcio Health from Portugal, iniciativas que estão a ajudar a acelerar a transformação digital dos cuidados de saúde em Portugal.

Embora seja necessária uma validação mais aprofundada, o estudo destaca o potencial dos gémeos digitais específicos para cada doente para se tornarem uma valiosa ferramenta cirúrgica, ajudando os médicos a visualizar a anatomia com maior clareza, a planear procedimentos de forma mais eficaz e a realizar cirurgias com maior precisão.
 

Artigo original aqui.


Texto por Andreia Pinho, Communication and Events Officer na Equipa de Comunicação, Eventos e Outreach da Fundação Champalimaud
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