04 Fevereiro 2026

Pela Primeira Vez, um Teste Laboratorial In Vivo num Peixe Permitiu Personalizar o Tratamento de um Doente com Cancro

Trata-se ainda de um caso isolado, mas constitui um marco: um teste laboratorial, realizado in vivo em embriões de peixe-zebra e desenvolvido na Fundação Champalimaud, permitiu escolher o tratamento mais adequado para um doente com cancro do cérebro, entre múltiplas opções terapêuticas aparentemente equivalentes.

O doente, com 37 anos de idade, tinha um gliossarcoma – um cancro do cérebro extremamente agressivo e raro. Foi submetido a duas cirurgias, mas o cancro, revelado por sintomas como afasia (incapacidade de falar) e falta de força num braço, regressou. O que se seguiu foi relatado na revista científica Communications Medicine, do grupo da Nature.

Foi na altura da terceira cirurgia que Daniela Garcez, co-autora do artigo e, na altura, neuro-oncologista da Unidade de Neuro-Oncologia da Fundação Champalimaud (FC), em Lisboa, se viu confrontada com uma escolha entre 13 potenciais tratamentos de quimioterapia “off-label”, com base no perfil genético do tumor e na literatura especializada. Como saber qual seria o mais adequado?

A neuro-oncologista decidiu então solicitar a ajuda do Laboratório de Desenvolvimento do Cancro e Evasão do Sistema Imunitário Inato da FC, liderado por Rita Fior, autora principal do estudo de caso agora publicado.

Há vários anos que a equipa de Rita Fior vem desenvolvendo um teste in vivo, em embriões de peixe-zebra, chamado “teste do zAvatar”, no qual estes animais são literalmente utilizados como avatares, alter-egos, dos doentes com cancro. 

Para realizar o teste, os investigadores injectam nos peixes uma amostra do tumor do doente para gerar os zAvatares. A ideia é que estes zAvatares sejam a seguir utilizados para testar a eficácia das diversas terapias disponíveis para esse doente e escolher a melhor – evitando assim, de forma personalizada, a administração de tratamentos ineficazes e efeitos tóxicos desnecessários. Mas o teste ainda não se encontra em fase clínica.


Treze opções terapêuticas

O que os investigadores têm estado a estudar, por enquanto, é o poder do teste do zAvatar prever, para um dado doente, o resultado de um tratamento que já foi, entretanto, administrado a esse doente. O teste tem sido posto à prova, desta forma retrospectiva, em grupos de doentes com cancro colorrectal e da mama. Mas até aqui, nunca tinha sido utilizado por um oncologista na sua escolha terapêutica.

“Até agora, tínhamos feito apenas estudos observacionais”, explica Rita Fior. “Testámos o modelo do zAvatar exactamente com a mesma terapia que o doente estava a receber, para ver se conseguíamos prever o que acontecia de facto ao doente.” O poder de predição do teste do zAvatar revelou estar perto dos 90% nos cancros testados.

No caso do doente com gliossarcoma, a abordagem foi diferente: os zAvatares foram tratados com radioterapia (à semelhança do doente, que estava a receber radioterapia focal) combinada com cada uma das 13 terapias potenciais. Daniela Garcez acabou por escolher a combinação de radioterapia com a quimioterapia com melhor perfil de tolerância das duas quimioterapias mais eficazes indicadas pelo teste, por temer a excessiva toxicidade para o doente se lhe fosse administrada a mais agressiva. 

“O teste do zAvatar não deve sobrepor-se à clínica, tem de ser utilizado para ajudar o clínico”, diz Rita Fior. “Têm de ser considerados vários factores – testes genéticos, aspectos clínicos, e o teste do zAvatar – para determinar a escolha terapêutica.” O oncologista deverá ter sempre a última palavra, porque “é quem olha para o doente”. A decisão final tem de ser uma colaboração entre o médico e o teste.

Infelizmente, o doente com gliossarcoma acabou por morrer, mas a utilização do teste do zAvatar permitiu estabilizá-lo e aumentar a sua sobrevivência após a terceira cirurgia. “O doente recuperou da afasia e melhorou a força do braço, tendo permanecido estável durante dois meses, durante uma fase muito avançada da doença, o que sugere um benefício deste tratamento durante esse período”, escrevem os autores no artigo.

O caso deste jovem doente não deixa de ser uma instância isolada, motivada pela sua idade, agressividade da doença e uma variedade de terapêuticas possíveis, mas sem indicação formal para este tumor. 


Poder do teste em cancro do ovário

Num outro artigo, publicado quase em simultâneo (a 30/12/2025) na revista científica Cell Reports Medicine, a equipa de Rita Fior – com colegas de unidades médicas da FC e de outras instituições de Portugal, França e Suíça – pôs à prova, pela primeira vez – e retrospectivamente – o poder preditivo do teste do zAvatar em doentes com cancro do ovário. Trata-se também de um cancro agressivo, que só costuma mostrar sintomas já em fases avançadas.

Portanto, foi um estudo observacional, cujo objectivo era, mais uma vez, determinar até que ponto o resultado do teste do zAvatar era preditivo do que acontecia na realidade – e não, utilizar a escolha do teste para orientar o tratamento. Para poder dar este passo, já foram abertos ensaios clínicos destinados a avaliar os benefícios da utilização efectiva do teste em cancro do ovário e da mama.

“Neste estudo”, explica Marta Estrada, do grupo de Rita Fior e primeira autora do artigo, “demonstrámos pela primeira vez, num grupo de 32 doentes”, que o teste do zAvatar tem um elevado poder preditivo do que irá acontecer na realidade. Os embriões de peixe-zebra foram injectados com amostras dos tumores das doentes e submetidos ao mesmo tratamento que a doente que tinha fornecido a amostra. O teste conseguiu prever a resposta das doentes à terapêutica em 91% dos casos.

No cancro do ovário, os tumores desenvolvem frequentemente multirresistência aos medicamentos. “O teste também permitiu identificar as doentes com um perfil de multirresistência aos tratamentos indicados”, acrescenta Marta Estrada.

E mais. “Neste estudo”, salienta Rita Fior, “numa doente com um tumor multirresistente, conseguimos mostrar que o venetoclax, um medicamento usado, em particular, no tratamento da leucemia linfocítica crónica, permitia tornar o tumor novamente sensível à quimioterapia.” 

O venetoclax é uma molécula que inibe uma proteína que é, por sua vez, inibidora da “apoptose”, ou morte celular programada, e cujos níveis surgem muitas vezes aumentados nos tumores multirresistentes. “Demonstrámos que, de facto, a combinação do venetoclax e da quimioterapia conseguia induzir a morte das células cancerosas – o que não tinha sido possível observar sem o venetoclax”, explica Marta Estrada.


Levar os zAvatares à clínica

Para o teste do zAvatar entrar na prática oncológica, é preciso, como já foi mencionado, realizar um ensaio clínico controlado e randomizado (aleatório), de forma a testar as suas previsões para cada tipo de cancro. 

Isto é diferente dos estudos observacionais retrospectivos. O objectivo dos ensaios clínicos é mostrar que, se o teste do zAvatar for utilizado para orientar a terapêutica, poderá realmente contribuir para ajudar os oncologistas a fazerem escolhas significativamente mais adequadas do que se forem só eles a tomar a decisão. 

“Trata-se de comparar dois grupos de doentes: um grupo no qual é o médico que escolhe e um outro grupo no qual é o teste do zAvatar que escolhe [com o apoio do médico] – com vista a demonstrar que é melhor ter um teste do que não ter”, salienta Rita Fior.

A sua equipa está neste momento a recrutar participantes com cancro do ovário e da mama para ensaios clínicos. Os investigadores estão ainda a ponderar um ensaio clínico para o cancro colorrectal, onde o teste do zAvatar demonstrou ter um poder de predição semelhante ao do cancro da mama e do ovário.


Artigo original da Communications Medicine & artigo original da Cell Reports Medicine.
 

Texto por Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud.
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