29 Janeiro 2026

Um Número Significativo de Casos de Cancro do Recto Localmente Avançado Pode Ser Directamente Tratado com Cirurgia

Uma equipa da Fundação Champalimaud mostrou que a ressonância magnética pode poupar uma parte substancial dos doentes com cancro do recto localmente avançado à quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia, evitando assim tratamentos tóxicos desnecessários.

Um Número Significativo de Casos de Cancro do Recto Localmente Avançado Pode Ser Directamente Tratado com Cirurgia

Actualmente, o tratamento de referência para o cancro rectal localmente avançado (ou seja, para os tumores que, apesar de terem atingido camadas profundas da parede rectal e/ou afectado os gânglios linfáticos próximos, ainda não se espalharam para o resto do corpo) consiste em submeter os doentes a tratamentos com quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia. Esta “terapia neoadjuvante total” reduz o risco de recorrência do cancro no recto e pode diminuir o risco de metástases. Porém, tem um custo para os doentes devido aos efeitos prejudiciais da radiação.

Agora, um estudo realizado pela equipa de cirurgia colorretal da Fundação Champalimaud, em Lisboa, que teve como primeira autora a cirurgiã colorrectal Laura Fernández, mostrou que a terapia neoadjuvante pode não ser necessária para um número substancial de doentes com tumores localmente avançados nos estágios II e III (respectivamente, sem e com envolvimento dos gânglios linfáticos próximos). 

Mais especificamente, utilizando ressonância magnética (RM) de alta resolução, foi possível identificar importantes factores de risco adicionais e distinguir um subgrupo de doentes de menor risco que provavelmente não irão beneficiar do tratamento antes da cirurgia. Para estes doentes, cuidadosamente seleccionados, a cirurgia pode ser realizada, com segurança, como primeiro passo. Os resultados foram publicados muito recentemente na revista Diseases of the Colon & Rectum.

A cirurgia referida neste estudo é a “excisão mesorrectal total” (TME na sigla em inglês), o tratamento cirúrgico de referência para o cancro do recto em todo o mundo. Envolve a remoção completa, em bloco, do recto, da gordura circundante (mesorrecto) e dos gânglios linfáticos circundantes. Foi desenvolvida em 1982 pelo cirurgião britânico Bill Heald, que é Diretor Consultivo do Programa Colorrectal da Unidade de Digestivo da Fundação Champalimaud há mais de 10 anos.

Fernández e a equipa queriam saber se os doentes nos estágios II e III do cancro do recto, considerados de baixo risco em termos de recorrência local e de metástases, poderiam ser submetidos directamente à TME, evitando o tratamento sistémico pré-operatório. Especificamente, tratava-se de doentes cujas imagens de RM mostravam que a fáscia mesorrectal – a cápsula de tecido fibroso que envolve o mesorrecto – não tinha sido atingida pela doença.

Para isso, utilizaram uma base de dados existente na Fundação Champalimaud que inclui doentes com adenocarcinoma rectal em estádio clínico II e III que, entre 2013 e 2024, foram submetidos a cirurgia sem fazerem radio nem quimioterapia pré-operatórias. No total, 94 doentes apresentavam uma fáscia mesorrectal livre de doença na RM e foram imediatamente operados. Mais de 95% dessas operações foram realizadas com técnicas minimamente invasivas, com mais de 75% realizadas com cirurgia robótica, que é actualmente a abordagem padrão da equipa. O programa cirúrgico foi desenvolvido após a equipa ter sido treinada pelo coautor principal Amjad Parvaiz.

Os resultados clínicos para estes 94 doentes foram “excelentes”, de acordo com os autores. Todos os doentes permaneciam livres de recorrência local após três anos e mais de 95% após cinco anos. Oitenta e sete por cento estavam livres de metástases distantes passados três anos e 81% passados cinco anos. A taxa de sobrevivência global a três anos foi de 97% e de cerca de 95% a cinco anos.

“Os doentes que foram submetidos a cirurgia inicial com excisão mesorrectal total de alta qualidade, identificados por RM de alta resolução, tiveram excelentes resultados oncológicos, tornando desnecessária a terapia neoadjuvante num subconjunto de cancros rectais em estádio II/III cuja fáscia mesorrectal não tinha sido afectada”, escrevem os autores.

“Estudos adicionais poderão ajudar a determinar se a cirurgia como primeiro passo do tratamento deve passar a fazer parte das opções terapêuticas nos ensaios clínicos de cancro rectal», apontam.

 

Tratamento após a cirurgia

É importante notar que, após a cirurgia, com base no estadiamento histológico final da doença destes doentes, apenas metade foi submetida a quimioterapia pós-operatória. Assim, uma outra conclusão do estudo é que a outra metade dos doentes foi tratada apenas com cirurgia, por ter sido considerado que a TME tinha removido com sucesso o cancro todo.

No entanto, os autores observam que este último facto “deve ser interpretado com cautela, reconhecendo que todos os doentes em estágio III da nossa coorte receberam terapia adjuvante e que o tratamento sistémico [pós-operatório] continua a ser um componente essencial” da terapia para certos doentes.

No entanto, em última análise, especulam, seria de esperar que uma proporção significativa de doentes com cancro rectal em estágio II ou III também pudesse ser poupada a uma quimioterapia pós-operatória desnecessária e tratada apenas com cirurgia.

“Embora os resultados sejam promissores, serão precisos maiores estudos multicêntricos e com um acompanhamento mais longo para os validar e refinar os critérios de selecção dos doentes”, concluem.


O artigo original pode ser lido aqui.

Texto por Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud.
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