Será que a radioterapia pode tornar-se a norma para o tratamento do cancro do pulmão? Será que a inteligência artificial (IA) pode ajudar os oncologistas na escolha do tratamento? Devem ser dedicados muito mais recursos à prevenção, nomeadamente ao rastreio populacional deste tipo de cancro?
Especialistas em oncologia reuniram-se na Fundação Champalimaud (FC), em Lisboa, para a terceira edição do Lung Cancer Fight Club, onde debateram, ao longo de um dia, estas e outras questões.
Nuno Gil, responsável pela Unidade de Pulmão da FC, enquadrou o encontro em torno do futuro dos cuidados do cancro do pulmão, salientando que as reduções globais da mortalidade por cancro são em grande parte impulsionadas pela diminuição das mortes por cancro do pulmão, mas que este continua a ser a principal causa de mortalidade por cancro a nível mundial.
O cancro do pulmão é o quarto em incidência (número de novos casos por ano), mas o primeiro em mortalidade, tanto em Portugal como no resto da Europa. Actualmente, o tratamento para o cancro do pulmão em fase inicial é a cirurgia – quando o cancro é operável. A grande maioria – mais de 80% – dos cancros do pulmão são os chamados cancros do pulmão de “células não pequenas” (NSCLC na sigla em inglês) e são geralmente tratados com cirurgia nas suas fases iniciais.
O primeiro orador – Santiago Figueroa, cirurgião torácico do Hospital Universitário Clínico de Valência, em Espanha – explicou que apenas cerca de 20% dos doentes com NSCLC são efectivamente submetidos a cirurgia, e que perto de metade dos doentes operados sofrem recidivas. Isto significa que apenas cerca de 10% de todos os doentes com NSCLC se tornam sobreviventes cirúrgicos livres da doença. Mas, dado que a maioria dos sobreviventes a longo prazo são doentes que foram submetidos a cirurgia, esta continua a ser a principal modalidade terapêutica.
A sobrevivência global está a melhorar, especialmente no estádio IV, disse Figueroa, devido à terapia direcionada e à imunoterapia. No entanto, salientou que, para melhorar os resultados, é fundamental aumentar a proporção de doentes elegíveis para cirurgia, o que só pode acontecer através do diagnóstico precoce da doença.
O orador seguinte contrapôs que talvez a radioterapia pudesse tornar-se o tratamento do futuro. Drew Moghanaki, radioncologista da Universidade da Califórnia, defendeu que a Radioterapia Estereotáxica Corporal (SBRT na sigla em inglês) poderá vir a substituir a cirurgia no cancro do pulmão em fase inicial.
É um facto que a cirurgia pode levar a complicações graves. Além disso, salientou o orador, inquéritos realizados junto de pessoas que foram submetidas a ambos os tratamentos indicam uma recuperação mais fácil, menores níveis de stress e maior satisfação com a SBRT.
Uma análise da Base de Dados Nacional do Cancro norte-americana, acrescentou Moghanaki, mostra um declínio para 40% na proporção de doentes em estádio I nos EUA submetidos a cirurgia e um aumento correspondente na utilização da SBRT, mesmo na ausência de ensaios clínicos definitivos. Também salientou que os dados disponíveis sugerem que não há uma vantagem clara, em termos de sobrevivência, na utilização da cirurgia em relação à SBRT.
Contudo, a cirurgia continua a ser indispensável, concluiu Moghanaki, especialmente para tumores maiores ou localizados centralmente – e quando é fundamental remover os gânglios linfáticos –, mas a SBRT parece comparável à cirurgia em doentes selecionados em estádio I e a sua utilização está a aumentar, impulsionada pela preferência dos doentes, pela segurança e pelos dados emergentes.
Durante a discussão que se seguiu, no entanto, todos concordaram que o rastreio do cancro do pulmão e a sua detecção precoce salvarão muito mais vidas do que as diferenças marginais entre as técnicas de tratamento.
A prevenção foi precisamente o tema da palestra de Andrea De Censi. De Censi foi recentemente nomeado Director do Departamento de Cancro da Mama da FC e defende a transferência de recursos do tratamento para a prevenção.
Quase 70% dos cancros do pulmão detectados por rastreio encontram-se no estádio I – ou seja, são controláveis. Além disso, observou, dois ensaios (um realizado nos EUA e outro na Holanda e na Bélgica) mostram uma redução de 20% a 30% na mortalidade por cancro do pulmão graças ao rastreio por TAC de baixa dose. Mas infelizmente, concluiu De Censi, a implementação do rastreio a nível populacional continua lenta em vários países, incluindo Portugal.
O potencial da utilização da IA no cancro do pulmão foi abordado numa palestra de Mihaela Aldea, do Instituto Gustave Roussy, perto de Paris, França. Segundo Aldea, uma das principais limitações à aplicação da IA na avaliação da patologia, na previsão da presença de mutações ou na ajuda à escolha do tratamento é que 40% dos dispositivos de IA aprovados pela FDA (a agência reguladora dos EUA) carecem de validação clínica. Outras limitações importantes são a falta de responsabilização em caso de previsões erradas e de equidade dos dados em relação às minorias.
E assim chegamos a outro obstáculo, repetidamente destacado ao longo do dia: a falta de ensaios clínicos robustos – para validar ferramentas de IA, mas também a SBRT ou o uso de cirurgia robótica para o diagnóstico e tratamento do cancro do pulmão.
Na sua palestra, Inês Pires da Silva, da Unidade de Dermatologia da FC, apelou a uma “revolução nos ensaios clínicos”. A infraestrutura dos ensaios clínicos continua lenta e burocrática, argumentou: menos de 5% dos doentes com cancro participam em ensaios e cerca de 40% desses estudos não conseguem completar o recrutamento.
Pires da Silva, especialista em melanoma reconhecida mundialmente, propôs três pilares de reforma. Primeiro, a concepção inteligente e integrada dos ensaios. Segundo, o acesso inteligente (ensaios descentralizados que utilizem ferramentas como o consentimento electrónico e as consultas virtuais, critérios de elegibilidade mais amplos e medidas para lidar com as barreiras linguístico-culturais e a equidade territorial). E por último, decisões inteligentes (por exemplo, a utilização de biomarcadores derivados de IA e da patologia digital – ou seja, a conversão de lâminas de histologia em imagens digitais de alta resolução que possam ser visualizadas, analisadas e armazenadas num computador, em vez de serem vistas apenas ao microscópio).
Destacou-se ainda a palestra de Tony Mok, da Universidade Chinesa de Hong Kong, apresentado pela moderadora da sessão, Cláudia Matos, oncologista médica da FC, como “um líder global em oncologia torácica cujo trabalho pioneiro na medicina de precisão mudou a forma como tratamos os nossos doentes”.
A mensagem principal de Tony Mok foi que a “cura” do cancro do pulmão não é uma questão binária de curar ou não, mas um conceito mais próximo de “cuidar” dos doentes ao longo da sua vida – uma noção que não exclui os tratamentos vitalícios. Neste sentido, afirmou, estamos hoje a curar um número significativo de doentes.
Mas há limitações, argumentou Mok, nomeadamente o desenvolvimento de resistência ao uso, a longo prazo, dos tratamentos actuais. Para o evitar, as futuras direcções da investigação devem residir no desenvolvimento de novas gerações de medicamentos, de vacinas personalizadas contra o cancro do pulmão e de terapias celulares.
Mok apelou também ao fim das barreiras políticas que impedem que medicamentos eficazes e mais baratos, particularmente aqueles fabricados na China, cheguem aos doentes de todo o mundo.
Outros temas de âmbito mais transversal foram igualmente abordados ao longo do dia, tais como a relevância do microbioma no cancro e a importância de integrar a nutrição e o exercício físico nos cuidados oncológicos.
No que diz respeito ao cancro do pulmão em particular, qual é a principal mensagem a reter? É preciso ter os meios para o diagnosticar o mais cedo possível – e tentar abrir caminho para uma cura através de estudos e encontros como este, que envolvem a comunidade científica em geral.
Texto por Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud.