22 Julho 2026

Evento Ar: O que as histórias nos revelam sobre a mente humana

Porque é que certas histórias perduram ao longo dos tempos, enquanto outras desaparecem da memória colectiva? O que são as histórias? Serão apenas uma excentricidade, uma expressão lúdica do pensamento humano, ou desempenham um papel mais profundo na forma como pensamos? Estas questões serviram de pano de fundo para o Evento Ar “Começamos com uma história”, que decorreu em Junho na Fundação Champalimaud, reunindo neurocientistas e psicólogos para explorar o que a narrativa nos revela sobre a mente humana.

 

Tudo começou com uma história. 

O auditório encontrava-se mergulhado na escuridão, excepto por um feixe de luz que iluminava um canto do palco. Ali, uma jovem de vestido vermelho segurava um livro, sentada num cadeirão vermelho ao lado de uma pequena mesa com uma caneca e alguns livros, e de um candeeiro de leitura. Sobre uma carpete laranja, via-se ainda uma pilha de livros.

A contadora de histórias era Saheli Roy, estudante de doutoramento em Neurociências na Fundação Champalimaud e uma das anfitriãs da noite. Leu o início de uma história tradicional indiana sobre reinos e pretendentes ao trono.

Mais do que uma abertura artística, esta performance constituiu a primeira demonstração da noite sobre o poder das histórias, convidando o público a experienciar, antes de analisar, aquilo que as histórias fazem às nossas mentes.

A co-anfitriã, Lydia Fettweiss Neto, técnica de investigação na Fundação Champalimaud, partilhou com o público o choque que sentiu perante a destruição de livros retratada no filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, e como essa experiência lhe revelou o verdadeiro poder das histórias. 

“Os seres humanos são animais contadores de histórias”, afirmou. Embora a linguagem falada não deixe registos fósseis, acredita-se que as histórias tenham surgido na tradição oral, no folclore, sobrevivendo através da transmissão, ao longo de gerações, da memória colectiva e, mais tarde, da escrita. Mais do que relatarem uma série de acontecimentos, as histórias criam um significado partilhado.

“Construir narrativas sobre preocupações humanas comuns é importante porque nos confere uma vantagem evolutiva”, acrescentou Fettweiss Neto.

Esta introdução lançou naturalmente a questão científica da noite: se as histórias acompanham a humanidade desde sempre, o que fazem exactamente ao nosso cérebro?

O primeiro convidado foi Buddhika Bellana, Professor Associado de Psicologia na Universidade de York, em Toronto, que participou a partir do Canadá. 

“Sou neurocientista cognitivo e este é um evento sobre histórias. Porque é que estou aqui?” A sua resposta foi simples: “As histórias são ferramentas úteis para os cientistas que estudam a mente e o cérebro, porque moldam os nossos pensamentos; são uma janela para o funcionamento da mente”. As histórias são a forma como usamos palavras para construir mundos, tornando-se, por isso, uma ferramenta poderosa para quem investiga a memória e a imaginação.

Bellana interessa-se pelo que designa de “momentum” das histórias, ou seja, a sua capacidade de “alterar temporariamente quem somos”. Este fenómeno está relacionado com aquilo a que chamou de “ressaca literária”: a dificuldade em começar imediatamente um novo livro depois de terminar outro, porque os nossos pensamentos permanecem presos à história que acabámos de ler.

Para estudar este efeito, a sua equipa pediu a participantes que realizassem uma tarefa de associação livre de palavras antes e depois da leitura de uma história. Alguns leram a narrativa original, enquanto outros leram versões em que as frases ou as palavras tinham sido reorganizadas aleatoriamente. A questão era simples: será que uma história coerente continua a influenciar os pensamentos das pessoas mesmo depois de terminarem a leitura? 

A resposta foi afirmativa. “O efeito mais forte foi observado na versão imersiva da história”, explicou Bellana. “O carácter envolvente da história parece ser capaz de moldar os nossos pensamentos; são as histórias coerentes que persistem”, afirmou.
E concluiu: “As histórias capazes de nos transportar para mundos alternativos não são apenas úteis para quem estuda a mente e o cérebro; são uma ferramenta essencial, porque tornam estes fenómenos observáveis”.

Se Bellana demonstrou que as histórias podem influenciar temporariamente a forma como pensamos, a questão seguinte revelou-se igualmente fascinante: porque é que algumas histórias continuam a moldar gerações sucessivas, enquanto outras desaparecem?

Tal como os organismos vivos, também as histórias evoluem, adaptam-se ao ambiente e migram, como Fettweiss Neto já tinha lembrado na sua intervenção. Podemos até dizer que competem pela sobrevivência através da forma como são recordadas e recontadas. Mas o que determina o seu sucesso?

É precisamente esta a questão que Joe Stubbersfield procura responder. Professor Catedrático de Psicologia na Universidade de Winchester, no Reino Unido, estuda a evolução cultural das histórias: porque algumas atravessam séculos, enquanto outras desaparecem. Stubbersfield foi o segundo orador convidado (desta vez, fisicamente presente na sala).

Uma das características das histórias mais “memoráveis” é a sua adaptação às expectativas culturais, tornando-se familiares para cada comunidade. 

Como exemplo, Stubbersfield citou a história do Capuchinho Vermelho: na Europa, o antagonista é um lobo mau, em várias regiões na Ásia é um tigre. Em algumas versões, a protagonista não é uma menina, mas um menino.

Outro factor determinante é a localização. Quanto mais próxima geograficamente nos parecer uma história, maior tende a ser o seu impacto emocional. Este fenómeno é particularmente evidente nas narrativas assustadoras, como Stubbersfield ilustrou com A lenda de Maria Sangrenta (Bloody Mary). Adaptada para Lisboa, é a história de uma mulher chamada Maria, que sofre uma desfiguração facial tão horrível num acidente de coche que acaba por cortar a própria garganta e atirar-se da Torre de Belém. Reza a lenda que, se o seu nome for pronunciado três vezes diante de um espelho iluminado apenas por uma vela, o seu fantasma aparecerá reflectido no espelho e atacará quem o invocou.

Esta história – que combina um espelho, um fantasma e uma frase repetida – existe em várias versões espalhadas pelo mundo: uma bruxa de Salem nos Estados Unidos, a Rainha Maria no Reino Unido e ainda outra versão no Brasil. Até o filme Candyman foi inspirado nesta lenda.

“Espalhou-se no século XIX através de cartões comemorativos”, acrescentou Stubbersfield, referindo-se à versão em que um espelho revelava às jovens mulheres o rosto do futuro marido (com os resultados nefastos e assustadores que podemos imaginar).

Outro elemento que contribui para tornar as histórias memoráveis – sobretudo as assustadoras – é o nosso chamado “viés de negatividade”. 

“Os conteúdos negativos são mais facilmente retidos, especialmente quando estão associados a ameaças”, afirmou. O humor também pode ajudar uma história a perdurar, mas fazer rir pode não ser tão fácil como assustar.

Então, o que torna uma história bem-sucedida? 
“Familiaridade cultural, ressonância emocional, elementos sobrenaturais (embora não em excesso) e a evocação de emoções negativas”, resumiu Stubbersfield.

À medida que as discussões científicas chegavam ao fim, Saheli Roy regressou à história que tinha servido de fio condutor de todo o evento. Revelou então que se tratava de uma adaptação do Mahabharata, uma das duas epopeias em sânscrito da Índia antiga. 

Foi um final particularmente apropriado: ao concluir a narrativa, trouxe novamente os temas centrais do evento, desde a forma como as histórias moldam o pensamento e a identidade cultural até ao papel dos poderes sobrenaturais e do perigo. 

Depois de quase duas horas a explorar por que razão as histórias influenciam a memória, as emoções e a cultura, o público foi lembrado que, por vezes, a melhor forma de compreender o poder de uma história é, simplesmente, ouvi-la.
 

Texto de Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud

 

Loading
Por favor aguarde...