Sob o tema central da eficiência como condição para um sistema de saúde mais sustentável, equitativo e preparado para os desafios do futuro, o encontro assumiu-se como um espaço de discussão de soluções concretas, com propostas para uma utilização mais eficiente do investimento público, melhores incentivos aos profissionais e políticas centradas no doente.
Na sessão de abertura, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, defendeu a urgência de reformas estruturais no Serviço Nacional de Saúde, sublinhando que o atual modelo de urgências “não é eficaz nem eficiente” e que “Portugal não tem mais tempo para adiar transformações”.
Ao longo da manhã, diferentes painéis abordaram temas como o futuro do SNS, a gestão e eficiência num serviço de saúde universal, o financiamento da saúde e a regulação e democratização da ciência, com a participação de convidados como o ex-secretário de Estado da Saúde do Reino Unido, Andrew Lansley, o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, a Diretora-Geral da Saúde, Rita Sá Machado e representantes de organizações como a Pfizer, a Ordem dos Médicos e a ACSS.
A Fundação Champalimaud esteve representada pelos seus Presidente e Vice-presidente, Leonor Beleza e João Silveira Botelho, que intervieram em debates sobre investimento eficiente em saúde e sobre a importância da prevenção, reforçando a missão da instituição de contribuir para uma saúde mais inovadora, sustentável e centrada nas pessoas.
Investir com eficiência na Saúde
Na mesa-redonda “Investir com eficiência na Saúde”, Leonor Beleza sublinhou que o principal desafio do sistema não é aumentar indefinidamente a despesa, mas garantir que cada euro é aplicado de forma inteligente e com impacto real na vida das pessoas. “O nosso problema não é quanto gastamos, é se gastamos bem na Saúde”, afirmou, lembrando que a margem para aumentar o peso do setor no Orçamento do Estado é limitada.
Chamando a atenção para as desigualdades no acesso, Leonor Beleza lembrou que “infelizmente, a Saúde hoje é um setor onde não há uma razoável igualdade de acesso”, já que apenas uma minoria de portugueses consegue escolher entre o público e o privado graças ao seguro de saúde. A discussão com Miguel Ginestal, Diretor-Geral da APIFARMA e Pedro Pita Barros, Professor da Universidade NOVA de Lisboa centrou-se precisamente em como orientar o investimento para reduzir estas assimetrias, reforçar a eficiência do SNS e criar condições para que inovação e equidade possam caminhar lado a lado.
Viver mais e melhor: a economia da prevenção
Nos painéis dedicados ao tema “Viver mais e melhor: a economia da prevenção”, Andrea De Censi, Diretor do Departamento da Mama da Fundação Champalimaud, e João Silveira Botelho, defenderam uma mudança de paradigma centrada na prevenção e no diagnóstico precoce. Andrea De Censi alertou que Portugal está “50 anos atrasado na prevenção na medicina oncológica quando comparado com a cardiovascular”.
Numa perspetiva de saúde pública, José Manuel Boavida, presidente da APDP, sublinhou que “o que mais impacta a saúde são as doenças crónicas” e que as intervenções mais bem-sucedidas são precisamente as que ocorrem na fase de pré-doença. Esta visão foi reforçada por Rita Sá Machado, Diretora-Geral da Saúde, para quem “80% daquilo que tem impacto na Saúde não depende dos cuidados de saúde”, sublinhando que a prevenção e os determinantes sociais e comportamentais devem ter tanto ou mais peso do que o tratamento em si.
Prevenção como política pública e incentivo
Durante a mesa redonda sobre este tema, João Silveira Botelho, defendeu que é “preciso criar um programa de prevenção global e público”. Na sua intervenção, argumentou que a prevenção não pode depender apenas da iniciativa individual ou de programas dispersos, mas deve ser estruturada como uma política pública integrada, com metas claras e monitorização contínua.
João Silveira Botelho propôs ainda um modelo de incentivo positivo, segundo o qual “as pessoas deveriam ser premiadas pela prevenção”, por exemplo através de benefícios fiscais para quem cumpre um plano preventivo definido. Se a prevenção gerar diagnósticos mais precoces e tratamentos menos complexos, o sistema será não só mais justo, mas também mais eficiente e sustentável a médio e longo prazo.
Texto de Teresa Fernandes, Co-Coordenadora da Equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud.