Um legado que transformou o tratamento do cancro do reto
Quando o Professor Heald descreveu pela primeira vez a TME, as taxas de recorrência local após cirurgia ao cancro do reto situavam-se, entre 20% e 30%, implicando consequências devastadoras para os doentes. Ao insistir numa dissecção meticulosa e precisa no chamado “plano sagrado” (holy plane), respeitando a embriologia e removendo o mesorreto como uma unidade anatómica intacta, demonstrou que era possível reduzir a recorrência local para valores inferiores a 10%, com ganhos significativos em termos de sobrevivência e preservação funcional.
Na abertura do encontro, que aconteceu nos passados dias 22 e 23 de maio, o Professor Markus Büchler, diretor do Botton-Champalimaud Pancreatic Cancer Centre, recordou o caráter revolucionário dessa mudança:
“Passaram agora 50 anos desde que Bill inventou e criou a operação que conhecemos como Excisão Total do Mesorreto (TME). É uma história de sucesso tão extraordinária que a compararia ao primeiro transplante cardíaco ou hepático: um avanço cirúrgico decisivo que todos seguiram, porque era tão convincente, tão claro e tão benéfico para os doentes.” Prosseguiu recordando que, nas décadas de 1980 e 1990, o seu departamento, na Alemanha, apresentava uma taxa de recorrência local de 30%: “Um em cada três doentes desenvolvia uma recorrência local e metade deles acabava por morrer devido a ela. Depois surgiu um artigo no The Lancet a demonstrar que esta operação podia ser realizada com uma taxa de recorrência local de apenas 4%. No início ninguém acreditou. A seguir percebemos que tínhamos de conhecer este cirurgião e vê-lo operar.” Após visitar Basingstoke e assistir a duas cirurgias realizadas por Bill Heald, a sua prática mudou para sempre: “Voltei para casa e nunca mais utilizei outra técnica para o cancro do reto.” Mais tarde acrescentou: “Quando os princípios da TME foram estendidos à cirurgia do cólon, do pâncreas e da região esófago-gástrica, o impacto ultrapassou largamente o cancro do reto, salvando não apenas centenas de milhares, mas possivelmente milhões de vidas ao longo do tempo.”
Como salientou Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, não se tratou apenas de um aperfeiçoamento técnico, mas de uma verdadeira mudança cultural: “É impossível falar da história moderna do cancro do reto sem reconhecer o extraordinário contributo do nosso amigo e colega Bill Heald. O seu trabalho pioneiro na Excisão Total do Mesorreto transformou a cirurgia do cancro do reto internacionalmente, melhorando os resultados clínicos de inúmeros doentes em todo o mundo.”
Segundo Leonor Beleza, a influência de Bill Heald no programa colorretal da Fundação Champalimaud tem sido marcada pela “generosidade, liderança intelectual e ambição partilhada”, moldando não apenas as técnicas operatórias, mas também a própria cultura da Unidade.
Ciência assente na anatomia e na colaboração
Ao longo da reunião, os oradores destacaram os princípios fundamentais que sustentam a TME: anatomia precisa, técnica rigorosa e monitorização contínua. Debateram igualmente a forma como esses princípios se estendem hoje à biologia molecular, à imagiologia, à cirurgia minimamente invasiva e às terapêuticas sistémicas.
A radiologista Gina Brown recordou a evolução desde a época em que o toque retal constituía a principal ferramenta de estadiamento até à atual utilização da ressonância magnética de alta resolução e de sistemas sofisticados de estratificação de risco. Trabalhando em estreita colaboração com patologistas e cirurgiões, a sua equipa demonstrou que fatores como o envolvimento da fáscia mesorretal, a invasão venosa extramural e os depósitos tumorais devem orientar as decisões relativas à terapêutica neoadjuvante e à preservação de órgãos, em vez de se valorizar apenas o tamanho dos gânglios linfáticos. “Não estamos aqui para ajudar a TME a justificar-se”, afirmou. “Estamos aqui para melhorar o estadiamento prognóstico dos doentes... O que significa uma imagem para a sobrevivência? E o que significa para o doente?”
Cirurgiões como o Professor Amjad Parvaiz enquadraram a TME na evolução técnica da cirurgia, desde a abordagem aberta à laparoscopia e à robótica, insistindo que a tecnologia continua a ser “uma ferramenta, não uma religião”. Segundo estes especialistas, a robótica e a imagiologia avançada podem ajudar a reproduzir de forma consistente a operação de Bill Heald em situações particularmente difíceis, como pélvis masculinas estreitas, doentes obesos ou previamente sujeitos a radioterapia, mas a verdadeira “religião” do cirurgião continua a ser a mesma: “As novas abrodagens são apenas ferramentas; a religião do cirurgião é a anatomia.”
Outras sessões abordaram a dissecção dos gânglios pélvicos laterais, a exenteração pélvica, o equilíbrio entre cirurgia e tratamento não cirúrgico e o papel da terapêutica neoadjuvante total. Em todas elas regressou a mesma questão que Bill Heald coloca há décadas: como equilibrar controlo local, sobrevivência e função, evitando simultaneamente o sob- e subtratamento de cada doente.
Uma "história de amor” entre Bill Heald e a Fundação Champalimaud
Para a Fundação Champalimaud, este encontro constituiu também a celebração de uma relação duradoura e quase pessoal com Bill Heald. O Vice-presidente da Fundação Champalimaud, João Silveira Botelho, resumiu-a da seguinte forma: “Foi amor à primeira vista.” E acrescentou: “Naquela altura, a Fundação Champalimaud ainda estava a dar os primeiros passos. O Bill veio quando nem sequer existia cirurgia aqui. Acreditou não apenas na instituição, mas no sonho. Mais do que confiança na instituição, tinha confiança no sonho, e isso foi uma das nossas maiores conquistas.”
Esse sonho incluía a construção de um programa colorretal inovador e centrado no doente, desde a adoção da TME e da dissecção ganglionar lateral até ao desenvolvimento da estratégia de “Watch & Wait” (“vigiar e esperar”) para doentes selecionados com resposta clínica completa após quimiorradioterapia ou terapêutica neoadjuvante total.
Muitos dos oradores sublinharam como as visitas, a mentoria e a insistência discreta de Bill Heald na manutenção de elevados padrões ajudaram a moldar este percurso, inspirando e formando cirurgiões que hoje lideram programas de cirurgia robótica, preservação de órgãos e ressecções alargadas por todo o mundo.
O homem por detrás do método
Para além dos números e da técnica, alguns dos momentos mais marcantes da reunião foram aqueles que revelaram Bill Heald como pessoa: cirurgião, professor, inovador, velejador, mentor, pai e amigo. Um vídeo de homenagem, preparado em segredo por colegas, amigos e familiares , recordou à audiência que o seu legado não está inscrito apenas em curvas de sobrevivência ou programas de certificação, mas também nas vidas e carreiras que ajudou a moldar. Colegas do Reino Unido, da Europa, da Ásia e das Américas descreveram-no como uma “lenda viva”, cuja curiosidade, rigor, coragem e humildade definiram o tom de toda uma geração de cirurgiões colorretais.
Do “plano sagrado” ao desconhecido
Na sua própria intervenção, o Professor Bill Heald regressou ao tema do “Centre for the Unknown”, conceito central da Fundação Champalimaud, segundo o qual a ciência e os cuidados clínicos devem enfrentar continuamente a incerteza: sobre a biologia da doença, sobre o equilíbrio adequado entre cirurgia, radioterapia, quimioterapia e imunoterapia, e até sobre quando não operar.
Reconheceu igualmente a coragem dos colegas que utilizaram os conhecimentos anatómicos proporcionados pela TME não apenas para aperfeiçoar a cirurgia, mas também, em casos selecionados, para justificar a ausência de cirurgia.
Os participantes enfatizaram que os progressos futuros dependerão precisamente desta integração entre anatomia e biologia, entre estrutura e ciência: utilizar a ressonância magnética, a caracterização molecular dos tumores, a imunologia, o ADN tumoral circulante e as novas ferramentas de inteligência artificial não para substituir o parecer clínico, mas para o aperfeiçoar, garantindo que “o doente certo recebe o tratamento certo, por vezes mais intensivo, por vezes menos.”
Cinquenta anos depois
Cinco décadas após a primeira descrição da TME, os seus princípios fundamentais - compreender a anatomia, respeitar os planos anatómicos, operar com precisão, ensinar com generosidade e nunca esquecer que por detrás de cada cirurgia existe uma pessoa - continuam a constituir os alicerces sobre os quais se constroem novas técnicas e novas terapêuticas.
E, através dos muitos cirurgiões, clínicos e cientistas que ensinou, inspirou e desafiou, o legado do Professor Bill Heald continuará a moldar os cuidados no cancro do reto durante muitas décadas.
Texto de Teresa Fernandes, Co-coordenadora da equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud.