15 Outubro 2026

Mais de 1,25 milhões de euros atribuídos a três investigadores da Fundação Champalimaud para neurociência e imunologia

Três investigadores da Fundação Champalimaud (FC) receberam mais de 1,25 milhões de euros através de dois concursos de financiamento da Fundação “la Caixa”. Marta Moita e Klaas van Gisbergen receberam apoio através do concurso CaixaResearch de Investigação em Saúde, enquanto Tatiana Silva foi selecionada no primeiro concurso HealthCare Research.

Os três projetos abrangem áreas de investigação muito diferentes. Moita, em parceria com César Mendes, da NOVA Medical School, irá investigar como o cérebro e o corpo produzem as rápidas reações defensivas que nos fazem saltar ou retrair quando somos surpreendidos. Van Gisbergen irá estudar como determinadas células imunitárias se estabelecem nos pulmões, com o objetivo a longo prazo de melhorar as vacinas contra a gripe e outros vírus respiratórios. Silva irá testar se caminhar pode tornar uma tarefa de aprendizagem bem estabelecida mais fiável como forma de avaliar a função cerebral, em particular a do cerebelo, uma região do cérebro importante para o movimento e a aprendizagem.

No seu conjunto, estes financiamentos sublinham o compromisso continuado da Fundação “la Caixa” em apoiar investigação de excelência com potencial para fazer avançar a nossa compreensão da saúde e da doença e, em última análise, beneficiar a saúde pública.

Marta Moita: compreender o que acontece quando nos sobressaltam

Quando somos surpreendidos por um ruído forte ou um movimento súbito, saltamos ou retraímo-nos instintivamente. Esta “resposta de sobressalto” é um antigo mecanismo de sobrevivência partilhado em todo o reino animal e que se revela exagerada em perturbações de ansiedade e stress em humanos. Apesar de as respostas de sobressalto serem tão comuns e clinicamente relevantes, os fatores que moldam os circuitos cerebrais que as produzem continuam a não ser bem compreendidos.

Com 670 550 euros de financiamento para a FC, no âmbito de um projeto de consórcio de três anos no valor de 997 250 euros, a equipa de Moita irá utilizar moscas-da-fruta – cujos comportamentos defensivos se assemelham aos nossos, mas cujos circuitos neuronais podem ser estudados e manipulados com muito maior detalhe – para construir uma imagem detalhada de como as respostas de sobressalto estão organizadas no cérebro e no corpo. Os investigadores irão medir os movimentos dos membros e as alterações na atividade cardíaca e muscular, e identificar os circuitos neuronais específicos que controlam diferentes respostas, desde os sentidos que detetam o perigo até aos músculos que lhe respondem. Irão também examinar por que razão algumas moscas se sobressaltam mais do que outras com base nos seus genes ou experiências passadas.

O projeto é liderado pela FC em parceria com Mendes, investigador em neurogenética na NOVA Medical School, que traz experiência em controlo motor e métodos sofisticados para analisar o movimento em moscas-da-fruta. A sua equipa irá ajudar a analisar em grande detalhe os movimentos extremamente rápidos e complexos envolvidos no sobressalto. A colaboração baseia-se no trabalho anterior entre Moita e Mendes sobre a forma como os músculos e o movimento contribuem para os comportamentos defensivos.

“Ao estudar como funciona o sobressalto nas moscas-da-fruta, podemos obter conhecimentos sobre a forma como o cérebro e o corpo reagem a ameaças e sobre os mecanismos através dos quais os nossos genes e a experiência contribuem para essa resposta. Este conhecimento poderá ajudar-nos a compreender melhor as respostas de sobressalto patologicamente exageradas nas perturbações relacionadas com a ansiedade e stress”, afirma Moita.

Bio: Moita tem investigado comportamentos defensivos ao longo da sua carreira, desde o doutoramento com Joseph LeDoux na New York University, onde utilizou o condicionamento auditivo do medo para estudar a formação da memória, até ao seu trabalho de pós-doutoramento com Anthony Zador em Cold Spring Harbor Laboratory, onde desenvolveu abordagens experimentais para estudar a tomada de decisão percetiva auditiva. Mais tarde, estabeleceu o seu próprio laboratório na FC, onde explora como o contexto social e o estado fisiológico do corpo moldam os comportamentos defensivos, inicialmente utilizando roedores e, mais tarde, moscas-da-fruta. Concluiu recentemente o curso de Medicina, aprofundando os seus interesses de investigação nas interações entre o cérebro e o corpo em estados de saúde e doença.

Klaas van Gisbergen: compreender como as células imunitárias fazem dos pulmões a sua casa

A vacinação é um importante meio de proteção contra vírus respiratórios. As vacinas preparam o sistema imunitário para futuras infeções, expondo-o a uma forma enfraquecida e inofensiva de um agente patogénico, permitindo às células imunitárias “recordá-lo” e responder de forma mais rápida e mais forte da próxima vez. Entre estas encontram-se as células T, algumas das quais podem permanecer nos tecidos após uma infeção ou vacinação e ajudar a desencadear uma resposta rápida quando um agente patogénico regressa. No entanto, para vírus respiratórios como o da gripe, as vacinas atuais não são muito eficazes a recrutar estas células T protetoras para os pulmões, onde são mais necessárias.

Com 499 950 euros ao longo de três anos, a equipa de van Gisbergen pretende compreender exatamente como as células T se desenvolvem quando chegam aos pulmões, para que futuras vacinas possam ser concebidas de forma a recrutá-las para aí mais eficazmente. Os investigadores irão acompanhar o destino de células T individuais ao longo do tempo – uma técnica conhecida como rastreio de linhagem (lineage tracing) – e combinar esta abordagem com uma análise de quais os genes que cada célula ativa ou desativa à medida que amadurece, denominada perfil transcricional. Em conjunto, estas abordagens irão revelar os diferentes percursos de desenvolvimento que as células T podem seguir à medida que se adaptam à vida nos pulmões e identificar os sinais que as orientam para um percurso ou outro.

“Os pulmões proporcionam um ambiente particularmente desafiante para a sobrevivência a longo prazo das células T, o que significa que as células têm de fazer adaptações únicas para persistirem aí”, afirma van Gisbergen. “Ao identificar os sinais que orientam estas células, queremos saber como as células T fazem as escolhas que lhes permitem adaptar-se ao ambiente pulmonar – conhecimento que poderá, em última análise, ajudar-nos a desenvolver estratégias de vacinação que as orientem no sentido de se tornarem células T pulmonares de longa duração.”

Bio: Klaas van Gisbergen concluiu o doutoramento no VU University Medical Center, em Amesterdão, sob a orientação de Yvette van Kooyk e Theo Geijtenbeek, antes de realizar investigação de pós-doutoramento com Rene van Lier no Academic Medical Center, em Amesterdão, e com Axel Kallies no Walter and Eliza Hall Institute of Medical Research, em Melbourne, Austrália. Regressou a Amesterdão para estabelecer o seu próprio grupo no Sanquin Research, centrando-se na forma como as células T protegem contra infeções virais. Em 2023, estabeleceu o Tissue Immunity Lab na FC, onde estuda a diferenciação das células T nos contextos da infeção e do cancro.

Tatiana Silva: caminhar pode tornar mais fiável um teste de aprendizagem cerebral?

Imagine ver uma luz que é repetidamente seguida por um ligeiro sopro de ar em direção ao olho. Eventualmente, o cérebro aprende a associação e faz com que pestaneje quando vê a luz, mesmo antes de o sopro chegar. Este teste simples de aprendizagem, conhecido como condicionamento do pestanejar (eyeblink conditioning), é utilizado há muito tempo para estudar como o cérebro aprende, forma memórias e se adapta.

O condicionamento do pestanejar depende do cerebelo, uma região na parte posterior do cérebro que desempenha um papel importante na coordenação do movimento e na aprendizagem. A tarefa pode detetar alterações associadas a lesões cerebrais e a condições neurológicas e de saúde mental, mas a adoção clínica tem permanecido limitada, em parte porque as respostas podem variar consideravelmente tanto entre pessoas como na mesma pessoa.

Silva, investigadora de pós-doutoramento na FC, recebeu 80 000 euros através do primeiro concurso HealthCare Research da Fundação “la Caixa” para investigar uma forma aparentemente simples de tornar o teste mais consistente: caminhar. A investigação em animais mostra que realizar a tarefa enquanto se está em movimento pode tornar as respostas aprendidas mais fiáveis. O projeto de Silva irá testar se isto também se verifica nas pessoas, pedindo a adultos saudáveis que realizem a tarefa de condicionamento do pestanejar parados ou enquanto caminham numa passadeira. Se o movimento tornar o teste mais fiável, esta simples alteração poderá ajudar a estabelecer o condicionamento do pestanejar como uma ferramenta prática e não invasiva para avaliar e monitorizar a função cerebelar, lançando as bases para aplicações clínicas.

“Este financiamento vai permitir-me dar um passo importante da neurociência fundamental para a investigação em humanos”, afirma Silva. “O meu trabalho em ratinhos mostrou que o facto de um animal estar em movimento ou parado pode influenciar fortemente a aprendizagem cerebelar. Com este projeto, vou testar se podemos tirar partido desta descoberta para tornar o condicionamento do pestanejar uma medida mais fiável da função cerebral em humanos. Para mim, este financiamento é também um passo importante em direção à independência científica, permitindo-me desenvolver as minhas descobertas anteriores e estabelecer um novo programa de investigação.”

Bio: A investigação de Silva centra-se na forma como o cérebro aprende e recorda, com um interesse particular no cerebelo e na forma como estados comportamentais como a locomoção influenciam a aprendizagem. Durante o doutoramento no laboratório de Megan Carey na FC, estudou mecanismos neuronais da aprendizagem e da memória cerebelar em ratinhos. Atualmente, está a transpor estas descobertas para a investigação em humanos, trabalhando também com Marcelo Mendonça, na FC, para desenvolver abordagens simples e não invasivas para avaliar a função cerebral, com o objetivo de contribuir para aplicações clínicas. Além disso, é professora auxiliar convidada na NOVA Medical School, em Lisboa, e está ativamente envolvida em mentoria, divulgação científica e promoção da igualdade, diversidade e inclusão no meio académico.
 

Texto de Hedi Young, Science Writer & Content Developer da Equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud

 

Loading
Por favor aguarde...