29 Abril 2026

Marcelo Mendonça

Da curiosidade ao cuidado: moldar o futuro das neuroterapeuticas

Marcelo Mendonça

Impulsionado por um fascínio pela ciência, pelo comportamento e pela biologia – e moldado pelo seu ambiente social – o percurso de Marcelo Mendonça na medicina nasce da curiosidade e foi galvanizado por um momento clínico transformador. 

Marcelo Mendonça é atualmente Professor Auxiliar de Neurociência na Faculdade de Medicina da NOVA e Professor Auxiliar de Investigação Clínica na Universidade do Algarve. É também neurologista na Fundação Champalimaud, onde integra a Unidade de Neuropsiquiatria e é líder de grupo no Programa Neuroscience of Disease, onde está a estabelecer o seu próprio laboratório. Paralelamente, exerce funções como Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia. Mais recentemente, em conjunto com Albino J. Oliveira-Maia, abriu um novo capítulo com o Digital Neurotherapeutics Centre (DNTx Centre), um centro concebido para integrar neurociência, tecnologia e cuidados centrados no doente.

Nesta conversa, Marcelo reflete sobre o seu percurso, desde as primeiras aulas de farmacologia até às intervenções pioneiras de neuromodulação comportamental na doença de Parkinson, e sobre as oportunidades inesgotáveis que se abrem atualmente no campo das neuroterapêuticas.
 

O seu percurso até à neurologia começou longe de um ambiente académico. De que forma a sua educação influenciou a sua carreira?

Sempre procurei desafios e estimulação naquilo que faço e, assim que algo deixa de me proporcionar isso, procuro a próxima aventura. Cresci num contexto rural, sem tradição académica no norte de Portugal. Ainda assim, sentia-me constantemente atraído pela matemática e pela astronomia, e insistia para que os meus pais me levassem a todas as exposições da Ciência Viva no Porto – o que, felizmente para mim, fizeram. 

Cresci numa altura em que existia uma forte noção de «elevador social». Se eras um bom aluno, havia uma expectativa, quase um enviesamento, de que a medicina era o caminho certo. Gostava de biologia e comportamento, mas não estava totalmente convencido. Entrei em medicina com alguma incerteza, mas de mente aberta.

Durante o curso, o meu interesse pela função cerebral foi crescendo gradualmente, sobretudo pelas disfunções motoras. Lembro-me vividamente de ter dificuldades nas aulas de farmacologia, a tentar compreender o modelo «go/no-go» dos gânglios basais. Simplesmente não parecia explicar a complexidade do movimento animal. Depois, em 2007, durante um estágio de neurologia, testemunhei uma situação extraordinária que despertou algo em mim: um doente com tremor grave que deixou de tremer quase instantaneamente após a ativação de um dispositivo de estimulação cerebral profunda (ECP). Pareceu-me quase mágico! Aquele momento mudou tudo – percebi que queria aprofundar a neurociência por trás daquele fenómeno.
 

O que o seu trabalho revelou até agora? O que se destaca?

A estimulação cerebral profunda (DBS) é verdadeiramente transformadora e tem sido uma área central do meu trabalho. Por exemplo, realizámos ensaios que utilizaram acelerómetros para caracterizar fenótipos de marcha em doentes submetidos a DBS, gerando dados de elevada qualidade para aperfeiçoar as intervenções e melhorar os padrões de cuidados. Mais recentemente, temos vindo a aperfeiçoar a aquisição de dados através da captura de movimento sem marcadores.

Na Unidade de Neuropsiquiatria, também desenvolvi interesse em técnicas como a estimulação magnética transcraniana (TMS). Embora tenha surgido no contexto da neurofisiologia clínica, o principal impacto da TMS tem sido na transformação dos cuidados psiquiátricos. Nos últimos anos tem-se observado um interesse crescente pela estimulação cerebral não invasiva na neurologia. Por exemplo, um ensaio conduzido por Giacomo Koch demonstrou que, na doença de Alzheimer, a TMS orientada por EEG poderia ter um impacto nos sintomas, com resultados promissores quando comparados com tratamentos farmacológicos mais tradicionais. 

O que mais me entusiasma é a possibilidade de combinar neuromodulação com intervenções comportamentais. Na doença de Parkinson, por exemplo, a combinação entre estimulação cerebral e atividade física pode conduzir a melhores resultados com menos efeitos secundários. Tenho-me focado particularmente nas disfunções da marcha, sobretudo pela paralisação da marcha (freezing of gait), que continua a ser um dos sintomas mais difíceis de tratar. Estamos a preparar um ensaio clínico para testar a estimulação do córtex motor em doentes com Parkinson, utilizando conhecimentos provenientes de estudos de lesão cerebral e avaliações comportamentais detalhadas para refinar os alvos terapêuticos. Em última análise, o objetivo é proporcionar intervenções personalizadas que integrem estimulação cerebral e terapias comportamentais.
 

Em conjunto com a Albino, está a lançar o Digital Neurotherapeutics Centre. O que inspirou esta nova iniciativa?

A pandemia da COVID-19 expôs lacunas significativas nos cuidados prestados aos doentes. Muitos doentes com doenças neurológicas crónicas tiveram dificuldades no acesso ao tratamento, na continuidade dos cuidados e na reabilitação. Tornou-se evidente que precisávamos de novas abordagens. As terapêuticas digitais oferecem um caminho – através da estimulação cerebral não invasiva, tecnologias vestíveis e intervenções comportamentais imersivas.

O Centro DNTx é pioneiro neste sentido, concebido para integrar estas ferramentas nos cuidados clínicos desde o início, e não como um complemento. O nosso foco incidirá sobre perturbações do movimento, cognição e doenças neurodegenerativas. Por exemplo, estamos a desenvolver e a testar ferramentas de reabilitação gamificadas para avaliar se aumentam o envolvimento dos doentes, melhoram a eficácia terapêutica e se traduzem em benefícios reais no dia a dia.
 

Como irá este Centro articular-se com a indústria e o ecossistema de investigação?

Queremos que este centro funcione como um espaço de validação clínica, um verdadeiro laboratório viva (testbed) para startups e neurotecnologias emergentes, incluindo as provenientes de iniciativas como o Neurotechnology Warehouse. 
Temos particular interesse em parcerias com equipas que desenvolvam ferramentas de IA, dispositivos vestíveis e plataformas terapêuticas digitais alinhadas com os nossos valores clínicos. 

À medida que avançamos, espero que este centro contribua para estabelecer padrões de segurança, eficácia e regulamentação nas neuroterapeuticas digitais. A neurologia está a evoluir e precisamos de ir além de um modelo puramente farmacológico. O cérebro não pode ser abordado da mesma forma que o fígado ou o rim; para além de processar informação, produz comportamentos complexos e gera movimentos que são dinâmicos, adaptativos e dependentes do contexto. Os nossos tratamentos devem refletir esta singularidade.
 

Com o aumento da complexidade tecnológica, como garantir que os cuidados permanecem humanos?

A tecnologia deve potenciar os cuidados de saúde, nunca substituir a ligação humana. As ferramentas digitais devem capacitar tanto os profissionais de saúde como os doentes. A gamificação, por exemplo, pode tornar a reabilitação mais motivadora, enquanto a recolha contínua de dados nos permite adaptar os tratamentos às necessidades individuais. Em última análise, o objetivo é simples: melhorar a qualidade de vida dos doentes. Seja através de um melhor controlo dos sintomas, menos efeitos adversos ou cuidados mais personalizados, a tecnologia só tem valor se servir as pessoas que dela necessitam.
 

Com vista ao futuro, qual é a sua visão para o campo das neuroterapêuticas?

Imagino um futuro em que as intervenções não farmacológicas sejam padrão de cuidados – tão comuns quanto a medicação. Já estamos a assistir a esta mudança em doenças como a síndrome de Tourette e a doença de Parkinson, através de terapias comportamentais. Ao combinar estas abordagens com tecnologias avançadas, podemos criar modelos de cuidados mais eficazes e centrados no doente.
Este Centro DNTx é apenas o começo. Daqui a cinco anos, espero que tenhamos contribuído de forma significativa para transformar o tratamento das doenças neurológicas – assente na inovação, na colaboração e, acima de tudo, no bem-estar do doente.

 

Texto de Catarina Ramos, Co-coordenadora da Equipa de Comunicação, Eventos & Outreach (CEO) da Fundação Champalimaud
Entrevista e texto por Thaïs Lindemann, Neurotechnology Liaison Officer nas equipas CEO,
e de Coordenação do CRN da Fundação Champalimaud.
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