04 Março 2026

Pode o cérebro sentir o cancro? Financiamento até 25 milhões de dólares atribuído a equipa que inclui a Fundação Champalimaud, para explorar uma nova fronteira da oncologia

Uma equipa internacional de investigadores, que inclui Henrique Veiga-Fernandes, Investigador Principal na Fundação Champalimaud, foi selecionada para receber um financiamento Cancer Grand Challenges até 25 milhões de dólares ao longo de aproximadamente cinco anos. O consórcio, designado InteroCANCEption, irá investigar de que forma o cérebro e o sistema nervoso interagem com os tumores, um campo emergente que permanece uma das dimensões menos exploradas da biologia do cancro e que poderá abrir caminhos inteiramente novos para o tratamento da doença.

Liderada pelo Francis Crick Institute, no Reino Unido, a equipa reúne clínicos, cientistas e representantes de doentes, envolvendo investigadores de oito instituições em quatro países. O financiamento é atribuído conjuntamente pela Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute dos Estados Unidos, duas das maiores entidades financiadoras de investigação em cancro a nível mundial, no âmbito da iniciativa global Cancer Grand Challenges. Pela primeira vez, este prestigiado prémio internacional é concedido a uma instituição portuguesa.

O InteroCANCEption é uma das cinco equipas vencedoras hoje anunciadas, representando um investimento total de 125 milhões de dólares em investigação dedicada a alguns dos desafios mais complexos do cancro, com o objetivo de compreender os mecanismos que estão na base desta doença. Esta iniciativa vem dar relevo à importância de responder a questões fundamentais da biologia como base para futuras abordagens terapêuticas.


Repensar o cancro como uma doença que afeta todo o corpo

Tradicionalmente, o cancro tem sido estudado como uma doença das células e dos tecidos. No entanto, e cada vez mais, os investigadores reconhecem que os tumores não existem de forma isolada. Os nervos infiltram muitos tipos de cancro, influenciando o crescimento tumoral, o sistema imunitário e sintomas como a dor ou a perda de peso. Esta perspetiva está a transformar a forma como hoje se começa a estudar o  cancro - de uma doença confinada aos tecidos para uma doença integrada na complexa fisiologia de todo o organismo.

O que permanece muito menos compreendido é a forma como o próprio cérebro perceciona o cancro. “No centro deste projeto estão duas questões interligadas”, afirma Veiga-Fernandes. “Em primeiro lugar, será que o cérebro consegue detetar que um tumor está a crescer no corpo? E, em segundo lugar, se sim, como responde - envia sinais que ajudam a suprimir o cancro ou, em alguns casos, acaba por o apoiar inadvertidamente?”.

O nome da equipa, InteroCANCEption, refere-se ao conceito de interoceção, o processo através do qual o cérebro monitoriza o estado interno do corpo através de sinais transportados pelo sistema nervoso. A cada segundo, redes de neurónios sensoriais transmitem informação dos órgãos para o cérebro, que por sua vez envia sinais de regulação das funções corporais. Os investigadores acreditam que os tumores possam fazer parte deste diálogo - e que compreendê-lo poderá transformar a biologia do cancro.

Para o estudar, a equipa irá investigar como a informação sobre um tumor viaja ao longo das vias neurais entre os órgãos e o cérebro, e de que forma os sinais enviados de volta pelo cérebro podem influenciar a progressão tumoral e a resposta imunitária. Isto implica olhar para além das próprias células cancerosas, analisando também os circuitos neuronais e as células imunitárias que as rodeiam no microambiente tumoral.

“Há evidência clara que os nervos tanto podem promover como suprimir o crescimento tumoral”, acrescenta Veiga-Fernandes. “Mas ainda não compreendemos as regras e princípios que regem estas interações. É essa grande lacuna que estamos a tentar colmatar”.


Em direção a uma nova classe de terapias

Um dos objetivos mais ambiciosos do projeto é explorar se a manipulação da atividade neural pode influenciar a evolução do cancro. A estimulação elétrica e pequenos dispositivos implantáveis já são utilizados no tratamento de doenças neurológicas, como a doença de Parkinson e outras perturbações do movimento. A equipa acredita que implantes semelhantes - direcionados para regiões específicas da medula espinal - poderão modular a forma como os nervos comunicam com tumores em órgãos como o pulmão, o pâncreas e o cólon.

“Se conseguirmos compreender os circuitos que ligam o cérebro aos tumores, poderemos conceber tipos de terapias completamente novos”, afirma María Martínez Lopez, investigadora de pós-doutoramento no laboratório de Veiga-Fernandes. “Em vez de atuarmos apenas nas células cancerosas, poderemos atuar sobre os sinais que controlam a resposta do organismo ao cancro”.

Em paralelo, os investigadores pretendem identificar moléculas-chave envolvidas nas interações neuroimunitárias, abrindo caminho a novos alvos terapêuticos. “Ao decifrar estes sinais moleculares, poderemos ir além da simples gestão de sintomas e abordar causas fundamentais. Por exemplo, poderemos utilizar as próprias células imunitárias dos doentes para criar tratamentos personalizados, semelhantes a vacinas”, explica Lopez.

Embora as aplicações clínicas estejam ainda num plano a mais longo prazo, este trabalho poderá lançar as bases de um novo campo terapêutico centrado na modulação neural, complementando estratégias moleculares e imunológicas para orientar, de forma mais eficaz, a atividade do sistema nervoso na doença oncológica.


A perspetiva dos doentes na origem da descoberta

Para Veiga-Fernandes, um dos aspetos mais marcantes desta iniciativa é a participação de representantes de doentes no processo de seleção. “Os doentes fazem parte do percurso desde o início”, sublinha. “Chegam mesmo a participar nas entrevistas das equipas finalistas. É uma forma poderosa de tornar o processo científico mais aberto e de integrar as perspetivas e experiências das pessoas que poderão vir a beneficiar do que descobrirmos”.

O investigador destaca ainda que este financiamento sublinha o valor da ciência fundamental - a investigação orientada para compreender como a biologia funciona ao nível mais básico. “Muitas das descobertas que transformam a medicina começam com investigação motivada pela curiosidade”, afirma. “Este desafio assenta em perguntas profundas. E a história mostra que responder a essas perguntas conduz frequentemente aos avanços mais inesperados e transformadores”.
 


Legenda da Imagem: Imagem de microscopia de fluorescência de pequenas projeções em forma de dedo, no intestino, mostrando fibras nervosas (vermelho) e células imunitárias (verde) em estreita proximidade (núcleos celulares em azul). Compreender de que forma as interações entre o sistema nervoso e o sistema imunitário influenciam o crescimento tumoral é um objetivo central do projeto InteroCANCEption.

Texto de Hedi Young, Science Writer & Content Developer da Equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud

 

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