Quando a cirurgia digital e a radiologia se encontram: Laboratório de Cirurgia Digital no Congresso Europeu de Radiologia 2026
De 4 a 8 de março de 2026, a comunidade global de radiologia reuniu-se em Viena para o Congresso Europeu de Radiologia 2026 (ECR), um dos maiores encontros médicos da Europa. A edição deste ano, com o tema “Raios de Conhecimento”, focou-se na educação, inovação e na troca contínua de conhecimentos na área da radiologia.
Entre as instituições que apresentaram os seus trabalhos esteve a Fundação Champalimaud, representada pelo seu Laboratório de Cirurgia Digital (Digital Surgery Lab - DSL). O grupo de investigação multidisciplinar, co-liderado por Tiago Marques e João Santinha, apresentou projetos na interseção entre a medicina, a engenharia e a inteligência artificial (IA).
O laboratório reúne cirurgiões, radiologistas, engenheiros e investigadores que colaboram para criar e testar soluções digitais, desde modelos de IA a plataformas de realidade alargada, com o objetivo de transformar a forma como a cirurgia é planeada e realizada. A sua presença no ECR 2026 destacou uma das grandes mudanças na medicina: a crescente integração de imagens, tecnologias digitais e tomada de decisões cirúrgicas.
Através de apresentações e de uma demonstração ao vivo, a equipa apresentou novas abordagens para a saúde impulsionadas pela IA como visualização de tumores em cirurgias de cancro da mama e ferramentas digitais que podem remodelar o fluxo do trabalho clínico. As discussões revelaram que existe uma ambição partilhada de ir além da inovação tecnológica e procurar soluções que possam ser implementadas em larga escala na prática clínica diária.
2050: Estamos preparados para a saúde impulsionada pela IA?
Uma das contribuições mais aguardadas do grupo ocorreu durante uma sessão conjunta intitulada “2050: Estamos preparados para a saúde impulsionada pela IA?”. A palestra, apresentada pelo cirurgião e investigador Pedro Gouveia, cirurgião-chefe do DSL, juntamente com a radiologista Regina Beets-Tan, líder de grupo no Instituto de Cancro da Holanda, explorou a forma como a IA pode remodelar o panorama da saúde nas próximas décadas.
Embora a IA se tenha tornado um tema dominante na investigação e inovação médica, Pedro Gouveia realçou que o verdadeiro desafio não reside na tecnologia em si, mas sim na sua adoção. “Ainda existe um grande fosso entre a inovação tecnológica baseada em IA e a sua implementação”, explicou. “É muito comum perguntar a alguém o que a IA fez por ela e a resposta ser ‘nada’, e provavelmente essa pessoa tem razão.”
Barreiras como infraestruturas limitadas e baixo nível de literacia tecnológica continuam a atrasar a transposição das ferramentas de IA para a prática clínica diária. Para os oradores, preparar os profissionais de saúde, as instituições e os doentes para esta transição é essencial. Pedro compara frequentemente este desafio aos primórdios das comunicações móveis. “O que queremos da implementação da IA na saúde é o mesmo que aconteceu com os telemóveis na década de 1980: a democratização do acesso, independentemente da classe socioeconómica”, disse. “É isso que significa implementação em escala.”
A ideia para a sessão conjunta surgiu de um desejo partilhado de abordar as dimensões tecnológicas e culturais da adoção da IA. Em vez de se focar em algoritmos ou conjuntos de dados, o Pedro e a Regina exploraram como clínicos e sistemas de saúde se devem adaptar para trabalhar com ferramentas inteligentes. “Normalmente, os humanos temem aquilo que não conhecem”, observou Pedro. “Queríamos apresentar uma nova perspetiva sobre a IA que não assustasse as pessoas, mas que as ajudasse a vê-la como algo que melhora a nossa capacidade de prevenir, diagnosticar e tratar os doentes”.
Para ilustrar esta parceria entre humanos e máquinas, os oradores apresentaram um colaborador digital chamado Ave, como membro simbólico da sua equipa. Juntos, o trio – cirurgião, radiologista e agente de IA – demonstrou um futuro em que a perícia clínica e a inteligência digital trabalham lado a lado.
Regina Beets-Tan resumiu o impacto potencial da IA na prática clínica em termos simples: “A IA ajudar-nos-á a ser mais eficientes. Ajudará na padronização, mas também a tornarmo-nos mais precisos nos nossos diagnósticos e no nosso fluxo de trabalho com os médicos. Ajudar-nos-á a prever a resposta ao tratamento”.
Para ambos os oradores, o futuro da medicina não substituirá a perícia humana – irá ampliá-la.
Sessão conjunta "2050: Estamos preparados para a saúde impulsionada pela IA?" – Regina Beets-Tan e Pedro Gouveia
Previsão de resposta e recorrência no cancro da mama
Outro ponto alto da participação do laboratório foi a apresentação da aluna de doutoramento Rafaela Timóteo. A investigação de Rafaela aborda um desafio clínico de longa data: localizar tumores com precisão durante cirurgias quando as lesões são pequenas e, muitas vezes, não palpáveis.
As técnicas de localização atuais dependem de métodos invasivos, como fios ou marcadores inseridos no tumor antes da cirurgia. Estas abordagens podem ser desconfortáveis para os doentes e nem sempre fornecem informações precisas sobre os limites do tumor.
O trabalho da Rafaela explora uma abordagem alternativa baseada em tecnologias de realidade alargada combinadas com modelos digitais específicos para cada doente. "A investigação que apresentei no ECR reflete o trabalho que o nosso laboratório tem desenvolvido nos últimos anos", disse a investigadora. "Concentra-se na melhoria do planeamento pré-operatório e intraoperatório na cirurgia conservadora da mama, particularmente na localização do tumor.”
O processo inicia-se com duas ressonâncias magnéticas (RM), uma adquirida com o doente em decúbito ventral e outra em decúbito dorsal. Com recurso a estas imagens, a Rafaela e os seus colegas geram um gémeo digital da mama do doente, incluindo tecido adiposo, estruturas fibroglandulares e o próprio tumor.
Este modelo digital é depois visualizado através de tecnologia de realidade alargada e alinhado automaticamente com o doente na sala de operações através de sensores de profundidade. O resultado é uma visualização tridimensional do tumor projetada sobre a anatomia do doente, permitindo aos cirurgiões ver exatamente onde se encontra a lesão.
As técnicas tradicionais de localização fornecem orientação, mas muitas vezes exigem que os cirurgiões reconstruam mentalmente uma anatomia tridimensional a partir de imagens bidimensionais. A nova abordagem visa reduzir esta carga cognitiva. "Ao integrar informações anatómicas detalhadas, diretamente no campo cirúrgico, podemos melhorar a compreensão espacial", explicou ela.
Os primeiros resultados sugerem que a combinação de realidade aumentada com gémeos digitais é tecnicamente viável e pode permitir a localização precisa e não invasiva do tumor. O objetivo final é ajudar os cirurgiões a obter margens cirúrgicas livres, reduzindo a necessidade de cirurgias adicionais. “Ao reduzir a carga cognitiva dos cirurgiões, esta abordagem permite-lhes tomar decisões mais informadas e com maior precisão”, disse Rafaela.
Antes da tecnologia chegar à prática clínica, é necessária uma validação adicional. Trabalhos futuros irão envolver grupos maiores de doentes e melhorias tecnológicas, incluindo modelos biomecânicos aperfeiçoados que tenham em conta a deformação dos tecidos durante a cirurgia e a segmentação automática de imagens com o auxílio de machine learning. “A oportunidade de apresentar esta investigação no ECR foi um marco importante no meu doutoramento”, afirmou Rafaela. “Este trabalho reflete o esforço coletivo do nosso laboratório ao longo de vários anos e partilhá-lo numa conferência tão conceituada foi gratificante e significativo.”
Apresentação da investigação "Previsão de resposta e recorrência no cancro da mama" – Rafaela Timóteo
O Cubo: demonstrar a cirurgia digital
Para além das apresentações na conferência, o DSL contou também com uma área de exposição no Cubo – um ambiente interativo dedicado à aprendizagem prática em radiologia de intervenção – apresentando a sua configuração para melhorar o planeamento pré e intraoperatório em cirurgia conservadora da mama, particularmente a localização do tumor. A demonstração proporcionou aos participantes a oportunidade de interagirem diretamente com a tecnologia emergente, marcando a primeira vez que Portugal esteve representado na área de expositores do ECR.
A demonstração foi conduzida pelos investigadores Tiago Marques, João Santinha, Nuno Loução e Rafaela Timóteo, e pelo cirurgião Pedro Gouveia. “Com esta informação 3D das ressonâncias magnéticas, podemos sobrepor o tumor ao corpo do doente na sala de operações”, observou João. “Isto permite aos cirurgiões ver exatamente onde está o tumor e quais as suas margens”.
Embora a tecnologia tenha sido desenvolvida principalmente para aplicações cirúrgicas em doentes com cancro da mama, o público especialista em radiologia do ECR rapidamente identificou possibilidades adicionais. Vários participantes sugeriram que ferramentas semelhantes poderiam auxiliar em biópsias guiadas por imagem ou outros procedimentos de intervenção. Por exemplo, nas biópsias hepáticas, os médicos dependem frequentemente de múltiplas tomografias computorizadas (TC) para confirmar o posicionamento da agulha. Um sistema de visualização em tempo real poderia simplificar este processo, reduzindo a exposição à radiação e melhorando a experiência do doente.
Para João Santinha, esta primeira demonstração no congresso superou as expectativas. Com mais de 80 visitantes por dia, muitos participantes regressaram com colegas para experimentar o sistema, demonstrando curiosidade e entusiasmo sobre as suas potenciais aplicações.
Demonstração do Laboratório de Cirurgia Digital no Cubo – Tiago Marques, Nuala Healy e Rafaela Timóteo
Um ambiente de colaboração
Ao longo da semana, os investigadores interagiram com médicos, engenheiros e representantes da indústria interessados em cirurgia digital e tecnologias de imagem médica. Estas conversas abrangeram desde discussões técnicas sobre a integração da IA até reflexões mais amplas sobre a forma como as ferramentas emergentes podem remodelar os sistemas de saúde, servindo como catalisadores para a colaboração.
Um dos pontos altos da semana foi a participação de João Santinha no “Desafio Prático em Agentic AI”, organizado pela Bracco e pela EuSoMII no ECR. Este workshop foi um importante momento de formação e desenvolvimento profissional para técnicos, radiologistas e cientistas de dados, proporcionando-lhes a oportunidade de trabalharem em conjunto. João Santinha arrecadou dois prémios: um de “Melhor Desempenho em Inference” e outro de “Melhor Utilização do Orçamento”.
Para os membros do laboratório presentes, esta experiência foi particularmente valiosa, uma vez que o seu trabalho depende de conhecimentos interdisciplinares, integrando dados de imagem, modelação computacional e prática clínica.
A colaboração entre especialistas que tradicionalmente trabalham em áreas distintas, é fundamental. Neste sentido, o ECR serviu não só como plataforma para apresentar inovações, mas também como ponto de encontro onde futuras linhas de investigação podem começar a ganhar forma.
Prémio para "Melhor Desempenho em Inference" do desafio da Bracco e da EuSoMII – João Santinha
Olhando para o futuro
A discussão sobre a IA e a medicina digital continuará na próxima edição do Medica AI, que terá lugar na Fundação Champalimaud, no dia 16 de julho de 2026. O evento reunirá especialistas que exploram o futuro da IA e da inovação na medicina.
Informações sobre os oradores e bilhetes podem ser encontradas aqui.
Para saber mais sobre o grupo e os seus projetos, podem visitar a página do DSL.
Texto de Diana Cadete, Events & Engagement Manager da Equipa de Comunicação, Eventos e Outreach da Fundação Champalimaud